Apresentação

Você pode não perceber, mas a ciência está presente em quase tudo na sua vida: na comida que você come, na água limpa que você bebe, nas roupas que você veste, nos remédios que você toma, na energia que ilumina a sua casa, no telefone que você usa para se comunicar com as outras pessoas e com o mundo. A ciência que dá origem a todos esses bens, e que nos permite compreender o mundo a nossa volta, só existe graças ao esforço de milhares de pesquisadores, nas esferas pública e privada, que dedicam suas vidas à produção de conhecimento e ao desenvolvimento de novas tecnologias.

Apoiar o trabalho desses pesquisadores é o propósito que norteia a existência da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), que está prestes a completar 60 anos de serviços prestados ao desenvolvimento cultural, científico e tecnológico do Estado de São Paulo, em 23 de maio de 2022. Em preparação para este aniversário, a FAPESP convidou um grupo de jornalistas, cientistas, gestores e outras lideranças a contar sua história na forma de um livro: “FAPESP 60 anos: Ciência, cultura e desenvolvimento”, cujo conteúdo será publicado neste site, em 10 fascículos digitais mensais, a partir de julho de 2021.

Os fascículos serão publicados na última semana de cada mês, cada um deles voltado para um tema específico, relacionado ao trabalho desenvolvido pela FAPESP nessas últimas seis décadas. Convidamos todos — especialmente aqueles que ainda não conhecem a Fundação — a conhecer essa história fascinante de pioneirismo e empreendedorismo cultural e científico, que tanto influenciou e continua a influenciar os rumos do Estado de São Paulo e do Brasil.


FAPESP, um patrimônio da população paulista

Marco Antônio Zago

Marco Antônio Zago, presidente da FAPESP

A comemoração dos 60 anos da FAPESP é uma oportunidade para examinar criticamente o passado e planejar o futuro. Vivemos um tempo de transformações; as mudanças globais foram bruscamente aceleradas pela pandemia que tomou o mundo. Transformações, nem sempre positivas, comprimiram um decênio em alguns meses. O mundo mudou e não voltará atrás.

E a FAPESP, também mudou? Certamente, sim! Mudanças fazem parte da vida das instituições vigorosas porque aquelas que não evoluem morrem ou tornam-se obsoletas.

Em seis décadas, a agência expandiu seu espectro de atuação, modificou e ampliou programas afinados com as transformações da sociedade e com o avanço da ciência e da tecnologia. A realidade é, pois, muito distante do estereótipo de uma organização voltada apenas à ciência acadêmica, sem preocupação com o mundo real e com os temas urgentes da sociedade.

No seu primeiro decênio, predominaram a atenção com a ciência básica e com a infraestrutura de pesquisa, ainda muito incipiente nas universidades e nos institutos, e um esforço para atualizar o conhecimento e a pesquisa no Estado, favorecendo o contato com o exterior, a vinda de pesquisadores reconhecidos e a organização de reuniões científicas.

Desde seus primórdios, as bolsas para a formação de recursos humanos representaram um claro diferencial em relação ao restante do país, fortalecendo a renovação de uma elite de especialistas que garantem a qualidade da ciência, da educação e da gestão do Estado. Contamos com uma comunidade de 74 mil pesquisadores em instituições acadêmicas, governo e empresas inovadoras. Foram os pesquisadores jovens apoiados por bolsas e auxílios da FAPESP que lideraram a mudança significativa da ciência paulista a partir da metade dos anos 1990.

A década de 90 e o início dos anos 2000 sinalizaram uma grande ampliação de seu espectro de ação. São marcas daquele período: o Programa dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs), os programas Genoma da Xylella e Genoma do Câncer e o fortalecimento dos projetos temáticos, do PIPE e do PITE. Ganharam peso, assim, os projetos maiores, mais estruturados, mais longos e com participação de equipes de pesquisadores, incluindo aqueles voltados para aplicações práticas da ciência e tecnologia. Ao lado dos projetos individuais, de iniciativa do pesquisador, adicionou-se uma agenda de programas induzidos e de inovação. Marco relevante desse período: em outubro de 1989 a nova Constituição Paulista elevou a renda da FAPESP de 0,5% para 1% da receita tributária do Estado. Nos anos mais recentes, assistimos a uma evolução dessas políticas: fortalecimento dos projetos de maior duração e com equipes articuladas, do programa Jovem Pesquisador, para atrair e reter talentos científicos, e de apoio ao pós-doutorado. As formas de incentivo à inovação também foram expandidas, com a criação dos Centros de Pesquisa em Engenharia, hoje um vigoroso programa de colaboração entre empresas e academia.

A partir de 2015, a Fundação passou a dialogar de maneira mais consistente com setores da sociedade para implementar projetos de políticas públicas ou voltados para vencer gargalos ao desenvolvimento social e econômico do Estado, classificados como “pesquisa orientada a missão”: Modernização dos Institutos de Pesquisa do Estado, Ciência para o Desenvolvimento, Editais de Centros de Inteligência Artificial e de Apoio à Educação Básica. Recentemente, atuamos com força e rapidez na resposta à pandemia: 48 horas após o primeiro diagnóstico no Estado o vírus foi sequenciado, graças às redes de laboratórios e equipes apoiadas pela FAPESP para a pesquisa de vírus como dengue, zika, chikungunya e febre amarela. Apoiamos projetos de pesquisa básica, de inovação e clínica, como o teste de vacina.

A ciência brasileira seria muito menor sem a FAPESP. Algumas ações, ao longo dos 60 anos, ilustram seu impacto. Por exemplo, a internet no Brasil surgiu dentro da FAPESP e no LNCC, no final da década de 80. A genômica e a bioinformática brasileira foram originalmente criadas pela FAPESP: o sequenciamento do Genoma da Xylella, completado em menos de dois anos, foi um feito notável à época; dele derivou toda a pesquisa genômica de câncer, de patógenos e de plantas. São emblemáticos nossos programas estratégicos de bioenergia e energias renováveis (Bioen), biodiversidade (Biota), mudanças climáticas globais e pesquisa na Amazônia.

A FAPESP ajudou abrir a porta dos mares para os pesquisadores paulistas, com o navio oceanográfico Alphacrucis, e descerrar as janelas para o universo, participando da construção de telescópios como SOAR, Javalambre e Giant Magellan Telescope e do observatório para estudo de raios cósmicos Pierre Auger, na Argentina.

Mas, como todas as grandes ideias, esta história exemplar teve atores: um grupo de acadêmicos, intelectuais, empresários e políticos, que acreditava que conhecimento gera desenvolvimento. São paulistas do mesmo calibre daqueles que criaram e consolidaram as universidades públicas, os grandes institutos de pesquisa, trouxeram as universidades federais para o Estado e criaram empresas inovadoras de base tecnológica. A FAPESP terá vida longa porque esses pioneiros deixaram seguidores.