A favor do
conhecimento

A FAPESP não tem predileção por áreas do conhecimento, contempla a todas. É um movi­mento legítimo mais amplo, externo à instituição, articulado à sua sensibilidade para auscultar as demandas da comunidade científica local e captar as tendências da produção científica internacional, até as fronteiras do conhecimento, que vão determinar para onde fluem seus investimentos. E assim se entendem as variações e flutuações da aplicação de recursos por área ao longo das seis décadas de existência da Fundação.

A FAPESP não privilegia a pesquisa científica básica ou a aplicada, apoia ambas. E mais: se o suporte à pesquisa para inovação tecnológica foi eventual e esporádico nos primeiros 30 anos de vida da Fundação, desde a década de 1990 passou a integrar de forma sistêmica os alvos da instituição, o que, de resto, estava constitucionalmente previsto.

“Não faz parte da política da Fundação escolher para quais áreas vão mais ou menos recursos. O que determina, em primeiro lugar, o volume para cada setor é sua demanda qualificada”, diz o presidente da FAPESP, Marco Antonio Zago.

Esse olhar largo no entendimento do apoio à pesquisa foi fundamental para que a fundação instituída em 1960, e em funcionamento desde maio de 1962, se tornasse uma viga mestra na sustentação do desenvolvimento da ciência, tecnologia e inovação no estado de São Paulo, com efeitos poderosos sobre todo o desenvolvimento da cultura científica no país.

Não faz parte da política da Fundação escolher para quais áreas vão mais ou menos recursos

“No início de sua atuação, o importante era criar infraestrutura de pesquisa, tanto em termos de equipamento básico de laboratório quanto em recursos humanos, para assegurar aquilo que nós chamamos de a participação de São Paulo na grande ciência”, diz Zago, observando logo que essas primeiras ações da FAPESP “coincidiram com a implantação formal do sistema da pós-graduação no Brasil”, em 1965.

O impacto na formação de pesquisadores qualificados foi rápido e forte. “Naquele momento, um grande número de jovens da minha geração estava se formando e fazendo os primeiros doutorados. Esse grupo, das mais diferentes áreas, fez pós-graduação no exterior, grande parte deles financiada pela FAPESP. Voltaram três anos depois e vieram a ser os grandes líderes de pesquisa no estado”, relembra Zago, ex-reitor da Universidade de São Paulo (USP) — de 2014 a 2018 —, ele mesmo um pesquisador atuante e destacado desde os anos 1970 em genética, genômica e oncologia.

Em seus primeiros anos, era a demanda livre dos pesquisadores por bolsas e auxílios que orientava as concessões da FAPESP, observa, aliás, um dos primeiros beneficiados por um auxílio da agência, ainda em 1962, Flávio Fava de Moraes. Professor aposentado de histologia e embriologia da USP, adiante diretor científico da FAPESP (1985-1993) e reitor da USP (1993-1997), entre muitos outros cargos, Fava concluiu o seu doutorado em 1964 e seu olhar se estende, assim, por toda a vida da Fundação. “Depois de alguns anos de atendimento só às solicitações dos pesquisadores, a Fundação passou a estimular trabalhos mais amplos e de sua própria iniciativa, como, por exemplo, o Bioq-FAPESP”, conta ele. Era, de fato, um exercício pioneiro e efetivo de percepção e ação para dar suporte rápido a uma área de pesquisa altamente promissora.

Iniciado formalmente em 1971 e encerrado em 1978, o Programa para o Desenvolvimento da Bioquímica no Estado de São Paulo começou com 14 projetos, aos quais se somaram outros 11 nos três anos seguintes. O cientista Alberto Carvalho da Silva, em seu livro Atividades de fomento à pesquisa e formação de recursos humanos desenvolvidas pela FAPESP entre 1962 e 2001 , diz que em 1974 o Bioq já contava com 188 pesquisadores, distribuídos em 21 grupos. Até seu encerramento, em 1978, foram concluídos 43 projetos, com a titulação de 64 doutores e 43 mestres.

Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso em 1986, em Marília
Arquivo Florestan Fernandes

É justamente um traço forte da Fundação, ou seja, sua capacidade de perscrutar as tendências internacionais e intuir suas possibilidades locais, que Fabrício Marques destaca em reportagem na revista Pesquisa FAPESP sobre o Bioq, antes de detalhar seus reais efeitos na formação de grupos poderosos de pesquisa e geração de novos conhecimentos. O programa “inovou na década de 1970 ao escolher uma área emergente da pesquisa mundial — na qual, contudo, o estado de São Paulo tinha destaque restrito — e investir na formação de novos núcleos de pesquisadores, garantindo financiamento para projetos e montagem de laboratórios. Os frutos científicos do programa são vários”, diz ele.

Na sequência, exemplifica contando que “o grupo de Carl Peter von Dietrich (1936-2005), por exemplo, estabeleceu a estrutura da heparina, composta por uma sequência de açúcares ligados entre si. Com base nesse achado, Dietrich, que era professor da Escola Paulista de Medicina (EPM), pôde desenhar heparinas de baixo peso molecular, mas capazes de atuar como anticoagulantes. Hoje o negócio da heparina movimenta US$ 6 bilhões no mundo”.

Sociólogo e professor Octávio Ianni na defesa de seu doutorado, em 1961
UFSCar

O próximo exemplo citado, entre vários outros, é o do grupo de Walter Colli (USP) com sua demonstração de que a superfície do Trypanosoma cruzi , protozoário causador da doença de Chagas, era repleta de açúcares. “No aprofundamento desse achado, a doutoranda Maria Júlia Manso Alves chegou a uma molécula nova, composta por açúcares e lipídeos, e estabeleceu parte de sua estrutura. O pesquisador escocês Michael Ferguson repetiu o trabalho e disse a Maria Júlia que as âncoras de proteínas, cuja estrutura ele estava começando a estudar, tinham propriedades muito parecidas com a molécula descrita pelo grupo brasileiro, o que facilitou a sua identificação”, ele conta.

Marques observa ainda que o verdadeiro laboratório de experiências que foi o Bioq viria a “inspirar novas estratégias de estímulo à pesquisa da FAPESP”. “Era preciso ter mérito para ser selecionado, mas os pesquisadores que demonstraram competência e foram contemplados passaram a ter uma grande liberdade intelectual e prestígio, ainda que vários fossem muito jovens”, diz Hernan Chaimovich, professor aposentado do IQ-USP, um dos coordenadores do programa, que em anos mais recentes seria presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Destaca ainda que o Bioq foi o primeiro dos projetos especiais aprovados pela Fundação de 1970 a 1988, responsável por investimentos de US$ 1 milhão em seus três primeiros anos — o que, na época, tinha um poder de compra equivalente a US$ 5,5 milhões em 2011.

Fluxo do conhecimento

Desembolsos da FAPESP por grandes áreas do conhecimento ao longo das décadas

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Fonte: Relatórios de Atividades FAPESP
*Ano mais recente disponível

Vale registrar a essa altura que, nas três primeiras décadas de funcionamento da FAPESP, segundo o físico Carlos Henrique de Brito Cruz, presidente da instituição de 1996 a 2002 e seu diretor científico de 2005 a 2020, as ciências exatas e da terra e engenharias recebiam cerca de 50% dos investimentos da agência, enquanto as ciências da vida (biologia, agronomia, veterinária e medicina) absorviam em torno de 40% desses recursos. Hoje, as primeiras têm cerca de 35% e as segundas, 48% do total de investimentos.

A maior responsável pela variação positiva nas ciências da vida foi a área de saúde, que em 1992 recebia 20% dos recursos e viu esse percentual crescer até 26% em 2019. Brito também chama a atenção para o crescimento dos projetos interdisciplinares que, no início da existência da FAPESP, contavam com algo entre 1% e 2% dos investimentos e em 2019 alcançaram 10% do total investido, um aumento que “indica maior percolação entre áreas do conhecimento de um mesmo projeto”.

Nesse contexto, a pesquisa na área das humanidades merece bem mais que uma mera referência percentual, dado que foi em grande estilo que estreou na distribuição dos investimentos da FAPESP. Em resumo, antes mesmo que a Fundação tivesse oficialmente aberto as portas, o sociólogo Florestan Fernandes encaminhara uma carta datada de 13 de fevereiro de 1962 à presidência do Conselho Superior da FAPESP, ou seja, a Antônio Barros de Ulhôa Cintra, que era também o reitor da USP, pedindo financiamento para as pesquisas do Centro de Estudos de Sociologia Industrial e do Trabalho, o Cesit, ligado à cadeira de Sociologia 1 na USP e que ele tocava em estreita parceria com Fernando Henrique Cardoso e mais Octavio Ianni (ver Circa 1962, página 112 e seguintes).

O projeto, ambicioso, tanto que envolvia a aplicação de um questionário com 59 itens em 300 empresas industriais de São Paulo, é chamado na carta de “Plano especial de incentivo à expansão da pesquisa sociológica junto à cadeira de Sociologia 1”. Já em junho de 1962, a FAPESP concedia o apoio solicitado, o que incluía cinco bolsas de especialização, três de doutoramento, o envio de dois assistentes a estudos no exterior (Cardoso e Ianni) e o pagamento de US$ 1 mil mensais a professores visitantes estrangeiros, além da compra de uma câmera Leica, uma máquina de calcular e o ressarcimento de despesas de custeio. Já com 10 pesquisadores e mais 10 jovens que com o apoio da Fundação se integraram ao projeto — e se tornariam nomes dos mais respeitados em sua área —, o Plano não só formou pessoal atuante até hoje, como também produziu uma quantidade notável de estudos relevantes.

De todo modo, as humanidades tradicionalmente ocupam uma terceira posição no quadro de distribuição dos investimentos da FAPESP por grandes áreas do conhecimento. Em 1962 isso correspondeu a 10,18% do investimento total em pesquisa da Fundação e, em 2019, dado mais recente disponível, a 9,8%. Registre-se que dentro desse último percentual está embutido o financiamento de iniciativas de grande fôlego, como o Centro de Estudos da Metrópole (CEM) e o Núcleo de Estudos da Violência (NEV). Nos períodos de maior participação nos investimentos, as humanidades tinham cerca de 15% do total (15,11% em 1972 e 15,56% em 1982). E nos de menor participação, desceu à faixa de 5% do total, por exemplo, em 1992, quando aparece com um percentual de 5,78%. Sem dúvida é importante considerar a questão enfatizada por Zago de que diferentes campos de pesquisa exigem diferentes volumes de investimento em infraestrutura.

Trecho do genoma da Xylella fastidiosa

Depois do Bioq, segundo Fava, segue-se a política de apoiar outros projetos especiais, de alto impacto científico e desenvolvidos em parceria com consórcios internacionais e, mais adiante, em 1990, os temáticos, que tiveram e têm grande êxito. Sua proposta é o desenvolvimento de trabalhos por equipes multidisciplinares sediadas em diferentes centros, voltados a um único tema e com objetivos científicos ambiciosos. Cada temático aprovado é apoiado por quatro anos e pode ter o apoio renovado.

Os anos 1990, principalmente sua segunda metade, seriam fortemente marcados pelos projetos e programas especiais estruturados por iniciativa da Fundação, após auscultar a comunidade científica paulista e observar atentamente o cenário internacional. Um dos grandes marcos dessa política foi o projeto pioneiro da genômica no Brasil, o do sequenciamento do genoma da bactéria Xylella fastidiosa, causadora da Clorose Variegada dos Citros (CVC), doença conhecida como praga do “amarelinho”, que atingia os laranjais paulistas.

Explantes de laranjeira em laboratório do Fundecitrus
Fundecitrus

Lançado em 14 de outubro de 1997, com apoio do Fundo Paulista de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) e investimento de US$ 15 milhões, foi um dos maiores projetos científicos já realizados no país. Foi concluído no dia 6 de janeiro de 2000, com o mapeamento de todos os 2,7 milhões de bases do cromossomo do micro-organismo, e o artigo científico com seus resultados foi capa da prestigiosa revista científica Nature, em julho de 2000.

“O projeto não tinha como objetivo imediato aplicações práticas de seus resultados. Nunca foi desenvolvido para controlar a praga do amarelinho, ao contrário do que as pessoas pensavam. Seu propósito era a capacitação, o treinamento e a geração de competência em genômica, que no Brasil estava muito atrasada”, conta o físico José Fernando Perez, professor da USP e diretor científico da FAPESP (1993-2005). Entretanto, bem-sucedido, não só ajudou no controle da doença, como também foi a base para muitos outros trabalhos no campo da genômica.

Diferentes campos de pesquisa
exigem diferentes volumes de investimento em infraestrutura

Originalmente, também não mirava a Xylella fastidiosa, que chegou a ser descartada como o organismo a ser sequenciado, “porque a bactéria se reproduz muito lentamente, tanto em plantas como em cultura, e aparentemente ninguém sabia cultivá-la aqui. Portanto, não se mostrava viável”, relembra Perez. Mas, antes do início dos trabalhos, descobriu-se que a engenheira agrônoma brasileira Victoria Rossetti (1917-2010), autoridade mundial em doenças de citros, dominava a técnica em cultivo da Xylella que aprendera com o francês Joseph-Marie Bové, especialista em fitopatologia e citricultura (e pai de José Bové, sindicalista militante antiglobalização). Falecido em 2016, Bové deu grandes contribuições ao avanço da pesquisa em citricultura brasileira desde 1959.

De acordo com Zago, um dos pesquisadores líderes de laboratórios no empreendimento, o projeto da Xylella marcou de fato uma mudança na ênfase que a FAPESP passaria a dar aos temas que vislumbrava como cruciais ao desenvolvimento científico. “Estava-se começando o sequenciamento de genomas e, naquela época, o que hoje pode ser feito em um dia, era um trabalho de dois anos. E só foi possível fazer o sequenciamento da Xylella fastidiosa nesse prazo porque se criou uma estratégia muito especial”, ele conta.

Ester Sabino e Jaqueline Goes, responsáveis pelo primeiro sequenciamento do Sars-Cov-2 no Brasil
Léo Ramos Chaves / Pesquisa FAPESP | Arquivo pessoal Jaqueline Goes

O dinheiro destinado ao sequenciamento não foi usado para construir prédios, destaca. “Um conjunto de cerca de 100 pesquisadores trabalhava em diversos laboratórios espalhados pelo estado e, no fim do dia, compartilhava os resultados. Foi a mais perfeita rede de produção do conhecimento que eu vi.” Ele entusiasma-se: “O sequenciamento completo do genoma da Xylella foi um ato heroico para a época. A consequência disso foi enorme”, diz. “Até aquele momento, praticamente não existiam laboratórios em São Paulo capazes de fazer os passos básicos da pesquisa molecular com DNA. O meu laboratório e alguns outros poucos faziam, não era uma tecnologia acessível aos pesquisadores de um modo geral. E com uma tacada só, centenas ficaram competentes em uma metodologia que, na época, era ultramoderna.”

Zago observa que, quando o projeto terminou, os pesquisadores que dele participaram foram trabalhar com a nova tecnologia nas áreas mais diversas, desde doença inflamatória e infecciosa até genoma de plantas. “Quando a Covid-19 chegou ao Brasil, na cidade de São Paulo, horas depois o genoma do vírus já estava sequenciado”, ressalta. E se for analisada a “árvore genealógica” dos pesquisadores que fizeram isso, observa, “vai se ver que são ligados aos laboratórios que participaram do projeto da Xylella”.

Esse sucesso original levou, nos anos seguintes, a bons resultados no sequenciamento dos genomas de outros micro-organismos, plantas e animais, com destaque para o da cana-de-açúcar, das bactérias Xanthomonas citri e Xanthomonas campestri, que causam o cancro cítrico, o da Leifsonia xyli, bactéria que ataca a cana-de-açúcar, do café, do eucalipto, da Xylella da amendoeira, em parceria com laboratórios americanos, do Schistosoma mansoni, parasita causador da esquistossomose, e o funcional do boi. Ainda nos anos iniciais, foi desenvolvido também o sequenciamento do Genoma Humano do Câncer, em parceria com o Instituto Ludwig.

Histórico de fomento

Valores desembolsados pela FAPESP para o pagamento de bolsas e projetos de pesquisa (auxílios)

(1) BP, BPE e BEPE; (2) TT, JC, EP, JP, PE, Bolsa Biota, Bolsa Bioen; e (3) Projetos Temáticos e Programas
*Os desembolsos em 2020 foram menores em função do impacto econômico da pandemia
Fonte: FAPESP

As belas consequências a longo prazo dos investimentos feitos na excelência de grupos de pesquisa, em qualquer área do conhecimento, são destacadas também pelo diretor-presidente da Fundação, o engenheiro Carlos Américo Pacheco. “Vou tomar um caso concreto em vírus: só foi possível termos respostas relativamente rápidas na Covid, com o sequenciamento do genoma do primeiro vírus 48 horas após ele chegar ao Brasil, porque financiamos, nos últimos 20 anos, um conjunto de pesquisas relevantes em virologia, epidemiologia e pesquisa clínica, começando com dengue, zika, chikungunya e arbovírus em geral”, ele diz. Nos anos anteriores, “a FAPESP tinha investido, por exemplo, R$ 16 milhões no grupo de Ester Sabino”, líder no sequenciamento do Sars-Cov-2. “Investiu bastante também no grupo de Dimas Covas, em Ribeirão Preto, e em outras equipes muito boas que produzem ciência e tecnologia de qualidade.”

Em meio a esse cenário, fortaleciam-se nos anos 1990 as vias de apoio sistêmico da FAPESP à pesquisa inovativa. “A Constituição Estadual de 1989, ao aumentar o repasse mensal do governo à Fundação de 0,5% para 1% das receitas tributárias do estado, permitiria ao Conselho Superior avançar no financiamento da pesquisa tecnológica e assim resolver uma insuficiência da Fundação”, diz o economista Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, secretário de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo de 1988 a 1995.

A primeira tradução prática dessa política de apoio à inovação começou a ser desenhada em 1994 e foi concretizada em 1995, com o lançamento do Programa de Apoio à Pesqui­sa em Parceria para Inovação Tecnológica (Pite), que permite a empresas contratar os serviços de instituições de pesquisa paulistas para desenvolver projetos e soluções de inovação. Dois anos depois, o lançamento do Programa de Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe) permitiria pela primeira vez à Fundação financiar diretamente o trabalho de pesquisadores em micro, pequenas e médias empresas no estado de São Paulo.

Nanofios para interligação de circuitos
Fernando Sato / Pesquisa FAPESP

Não foi sem resistência que a FAPESP implantou os programas de apoio à inovação tecnológica. “Alegava-se que um mesmo bolo teria que ser dividido por um número maior de projetos, por isso, houve mesmo uma discussão sobre quais seriam os reais objetivos da instituição, a pesquisa ou a inovação”, diz o empresário Pedro Wongtschowski, membro do Conselho Superior. “No entanto, vale lembrar que a vocação científica e a tecnológica estão claramente expressas nos documentos originais de criação e, apesar de uma certa resistência, a Fundação sempre entendeu muito corretamente que o locus da atividade de inovação são as empresas”, acrescenta.

Belluzzo observa que a questão provocou debates dentro do próprio Conselho Superior, do qual foi membro de 1992 a 1995 e de 2007 a 2013. “Lembro de uma conversa que tive com Oscar Sala, presidente de 1985 a 1995, que se opunha às parcerias com empresas. Havia um temor de que os projetos mais acadêmicos fossem prejudicados, mas a posição contra essa parceria foi derrotada de forma assertiva, em favor da associação com o setor privado e da pesquisa tecnológica.”

Anúncio dos dez Cepids selecionados, em 2000; governador Mário Covas e Brito Cruz, então presidente da FAPESP
Eduardo Cesar / Pesquisa FAPESP

Antes disso, houve até a proposta de criação de uma outra fundação dedicada exclusivamente ao apoio à inovação tecnológica. “Partiam os seus proponentes da falsa premissa de que a FAPESP seria orientada por cientistas pouco sensíveis à relevância da inovação tecnológica para o desenvolvimento”, lembra Jacques Marcovitch, professor da Faculdade de Economia e reitor da USP de 1997 a 2001. “Contrariando essa premissa, os investimentos em projetos de empresas induziram a elaboração e implementação de iniciativas voltadas para o incentivo à inovação. Uma dessas foi o Pipe, que resultou em mais de dois mil projetos apoiados, com resultados e destacados impactos comprovados por avaliações externas.”

Na virada para o século XXI, a Fundação lançou os Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid), destinados ao desenvolvimento de pesquisa básica ou aplicada, focada em temas específicos, e comprometidos com a inovação por meio de transferência de tecnologia, e com a difusão via atividades de extensão voltadas para o ensino fundamental e médio e divulgação para o público em geral. Hoje eles são 17, dos quais dois na grande área das humanidades e ciências sociais, sete na de ciências exatas e da terra e oito nas ciências da vida.

Outros programas complexos e abrangentes foram lançados entre os últimos anos da década de 1990 e a primeira década do século XXI, entre eles o Biota-FAPESP, para estudar a biodiversidade do estado de São Paulo e propor políticas para sua exploração sustentável; o Bioen, de pesquisas sobre bioenergia; e o de estudos sobre mudanças climáticas globais. Ao mesmo tempo, a FAPESP intensificava sua internacionalização, por meio de acordos com entidades similares no mundo, para potencializar a interação entre pesquisadores brasileiros e estrangeiros.

Muda de cana do projeto PangeiaBiotech
Léo Ramos Chaves / Pesquisa FAPESP

Interessante é observar também, para complementar a visão sobre a distribuição dos investimentos da FAPESP, em que instituições se encontram, no presente, os pesquisadores que recebem os recursos de auxílios e bolsas para o desenvolvimento de suas variadas pesquisas. Aqueles vinculados às três universidades estaduais paulistas, destaca Marco­vitch, em 2019 receberam 67,7% do total dos investimentos em pesquisa (na USP, 42,5%; na Unicamp, 14%; e na Unesp, 11,2%), enquanto aos pesquisadores das instituições federais de pesquisa, incluindo universidades e unidades como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), couberam 11,7% do investimento.

Pesquisadores das instituições particulares de ensino e pesquisa ficaram com 4,5% dos recursos neste mesmo ano de 2019, enquanto aqueles vinculados a empresas, portanto, dedicados mais à inovação tecnológica, receberam 7,2% do total investido.

Tais números indicam, entre outras inferências que permitem, que são as universidades públicas no estado de São Paulo, com a poderosa liderança da USP, o locus por excelência da produção de conhecimento com a qual a FAPESP está inteligente e constitucionalmente comprometida desde a sua concepção e, concretamente, desde os seus primeiros dias de atuação. A pesquisa para inovação recebe hoje aporte considerável da Fundação, mas a pesquisa científica ainda demanda muito mais.