A locomotiva
de uma arrancada
histórica

Herton Escobar

A ciência brasileira entrou no século XXI com uma arrancada histórica. Num sprint de apenas 15 anos, o país subiu 11 degraus no ranking de produção científica internacional, saltando da 24ª posição, em 1993, para 13º lugar, em 2008, segundo dados compilados à época pela empresa Thomson Reuters, com base em publicações indexadas na Web of Science. A produção nacional, que correspondia a apenas 0,5% do conhecimento científico publicado no mundo em 1993, passou a representar 2,5%, em 2013, e cresceu para 3,2%, em 2020, coroando um esforço de décadas de investimento em infraestrutura de pesquisa e formação de recursos humanos qualificados nas áreas de ciência e tecnologia.

Em meio a esse grande esforço coletivo de empoderamento científico nacional, um dado passou a chamar a atenção: mais de 50% do conhecimento científico produzido pelo Brasil no início deste século tinha raízes no estado de São Paulo, apesar de o estado abrigar menos de 30% dos pesquisadores do país. Em outras palavras: de cada 10 trabalhos cientí­ficos publicados por pesquisadores brasileiros em revistas indexadas nas plataformas internacionais da Web of Science naquele período, três tinham ao menos um pesquisador do estado de São Paulo entre os seus autores. Desde então, essa proporção diminuiu um pouco, mas sempre permaneceu alta — acima de 40% no período 2011-2016.

Produção científica do estado de São Paulo

Número de publicações científicas em revistas indexadas, segundo a origem geográfica dos autores

*A partir de 2005 há um forte crescimento no número de pesquisadores sediados fora de SP
Fonte: Scopus e SciVal, Elsevier / Elaboração C.H. de Brito Cruz (2021)

São números poderosos, que atestam o protagonismo do estado de São Paulo no desenvolvimento científico e tecnológico do país, e que resultam de uma convergência virtuosa de esforços do poder público com universidades, empresas, institutos de pesquisa e agências de fomento, tanto na esfera federal quanto estadual. A FAPESP exerceu um papel crucial nesse processo ao longo de toda a sua história, não só por conta dos valores investidos — foram mais de R$ 5,3 bilhões desembolsados em apoio a bolsas e projetos só no primeiro decênio deste século (período 2001-2010) —, mas também pela maneira estratégica como esses recursos foram distribuídos, sempre visando à excelência e ao pioneirismo da pesquisa científica no estado.

“Sempre buscamos dar saltos, pensar grande. Assumindo, inclusive, que o risco é algo inerente à qualidade do projeto”, conta José Fernando Perez, professor titular do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, que comandou a diretoria científica da FAPESP entre 1993 e 2005 — um período marcado pela gênese e consolidação de diversas iniciativas emblemáticas da Fundação, que ajudariam a impulsionar a produção científica paulista (e, consequentemente, a nacional) com ainda mais força dali para frente. Somente no período 2002-2006, por exemplo, o número de publicações científicas com autores do estado de São Paulo cresceu 41%.

Internacionalização

Parcela de publicações científicas produzidas em colaboração com autores de outros países

Fonte: Scopus e SciVal, Elsevier / Elaboração C.H. de Brito Cruz (2021)

Um dos marcos dessa época foi a criação, ainda em 1990, na gestão do professor Flávio Fava de Moraes (que antecedeu Perez na diretoria científica da FAPESP, de 1985 a 1993), de uma nova modalidade de auxílio à pesquisa: a dos Projetos Temáticos, que abriram espaço para o financiamento de projetos multidisciplinares, de maior porte e com até cinco anos de duração (comparado aos dois anos de um projeto individual convencional), o que ajudou a ampliar o escopo e a escala da ciência feita em São Paulo de uma forma geral.

Outro evento emblemático, em 1997, foi o lançamento do Programa Genoma, que teve como seu primeiro projeto o sequenciamento genético da bactéria Xylella fastidiosa, uma praga microscópica, causadora da clorose variegada dos citros (mais conhecida como “amarelinho”), uma das principais doenças das plantações de laranja do Brasil à época. Realizado em parceria com o Fundo Paulista de Citricultura (Fundecitrus), o projeto reuniu cerca de 200 pesquisadores, de 35 laboratórios, e se consagrou como um símbolo da ciência brasileira no início do século XXI. Gerou mais de 70 publica­ções científicas desde então — incluindo uma histórica capa da revista Nature, em 2000 — e, mais importante do que isso, plantou a semente da biotecnologia e da biologia molecular moderna no Brasil.

Na esteira da Xylella vieram vários outros projetos de grande porte e grande sucesso, como o Genoma Humano do Câncer, que sequenciou milhares de genes expressos em tumores, e o Genoma da Cana-de-Açúcar (ou SucEST), que mapeou de forma pioneira o DNA de uma das culturas agrícolas mais importantes do país. O resultado, em termos de produção científica, foi quase que imediato. A partir de 2001, com a publicação dos primeiros resultados do SucEST, a inexpressiva produção brasileira em genômica da cana-de-açúcar explodiu e passou a representar 20%, em média, das publicações mundiais sobre esse tema no período 1998-2006. O setor privado também se engajou na iniciativa, com recursos e expertise, ajudando a transformar o Brasil em uma potência internacional em biotecnologia de cana.

Colônia de bactérias Xylella fastidiosa infecta vasos de uma laranjeira
Elliot Watanabe Kitajima

Em 1999 nasce ainda o Programa Biota FAPESP, uma referência internacional de pesquisa sobre biodiversidade, que em duas décadas de trabalho mobilizou mais de 1.200 pesquisadores — incluindo 150 colaboradores de fora de São Paulo e outros 80 de fora do país — e produziu mais de 3 mil trabalhos científicos, além de subsidiar vários instrumentos de políticas públicas na área ambiental.

Um ano depois, tem início o Programa de Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid), voltados para a pesquisa de excelência em diversas áreas do conhecimento. Inicialmente, foram criados 11 centros, que funcionaram de 2001 a 2013; depois substituídos por outros 17 centros, envolvendo cerca de 500 cientistas do estado de São Paulo e quase 70 do exterior. “Especialmente nas últimas décadas, mas certamente ao longo de toda a história da FAPESP, a busca por uma visão estratégica é fundamental”, diz o físico Sylvio Canuto, professor titular do Instituto de Física e pró-reitor de pesquisa da USP no período 2018-2022. “Nós percebemos que existe uma preocupação em formar um patrimônio científico e prospectar projetos importantes para o futuro, e que os recursos necessários são concedidos para isso.”

Coleta de organismos aquáticos na serra do Cipó, Minas Gerais, pelo Projeto Biota
Daniel Previattelli

Em 20 anos de funcionamento, os Cepids produziram uma quantidade imensa de conhecimento científico, com mais de 14 mil trabalhos publicados por seus 230 pesquisadores principais, além de livros, artigos e relatórios importantíssimos para o desenvolvimento de políticas públicas mais eficientes, inclusive do ponto de vista social. “Avalio que o nosso papel é bem-sucedido. Nós geramos informação sólida e qualificada para os especialistas em políticas públicas, que não têm tempo de ler tudo sobre o assunto, mas precisam formular as melhores políticas para a sociedade”, afirma Marta Arretche, professora titular de Ciência Política da USP e ex-diretora do Centro de Estudos da Metrópole (CEM), um dos Cepid mais tradicionais da FAPESP, criado em 2001 e renovado em 2013 por mais 11 anos. Pesquisas produzidas pelo CEM foram fundamentais, por exemplo, para a formulação de políticas de habitação e mobilidade urbana. Já o Núcleo de Estudos da Violência (NEV), outro Cepid apoiado pela FAPESP desde 2001, é referência nacional em pesquisas sobre violência e segurança pública.

Esses grandes projetos, orientados por propostas ambiciosas, de longo prazo e bem financiadas, estimularam fortemente a colaboração entre pesquisadores paulistas e de outros estados, ajudando a impulsionar a produção científica de todos. Ao mesmo tempo, a FAPESP intensificou suas colaborações com outras fundações de amparo à pesquisa estaduais e com as agências de fomento federais — Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e Financiadora de Inovação e Pesquisa (Finep). “Com essa conjunção de esforços nós demos esse salto importante na produção científica nacional. Não apenas com autores paulistas, mas também com muitas pessoas de outros estados que colaboraram com pesquisadores de São Paulo”, destaca o bioquímico Jorge Guimarães, que presidiu a Capes de 2004 a 2015 — um período de forte expansão e qualificação da pós-graduação brasileira, que é onde se origina a maior parte da produção científica nacional.

Logo no início de sua gestão, Guimarães lembra ter feito um esforço importante para a inclusão de mais revistas científicas brasileiras nas plataformas de indexação internacional (como a Web of Science), o que também ajudou a aumentar as estatísticas de produção nacional a partir de 2005. Paralelamente, foi lançada em 1998 a plataforma Scientific Electronic Library Online (SciELO), fruto de uma parceria da FAPESP com o Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (Bireme), que deu ainda mais visibilidade à ciência brasileira ao indexar revistas e trabalhos nacionais que não apareciam nas plataformas internacionais.

Internacionalização

Outro ponto fundamental para elevar o patamar da produção científica nacional — tanto do ponto de vista qualitativo quanto quantitativo — foi a “internacionalização crescente” promovida pela FAPESP nas últimas décadas, afirma Perez. “Mais importante do que mandar pessoas para fora era trazer pessoas de fora para dentro. Essa é uma das culturas que busquei estabelecer para também melhorar a produção”, diz o ex-diretor científico. No processo de adesão ao projeto de construção do Observatório Soar, no Chile, inaugu­rado em 2004, Perez introduziu algo inicialmente polêmico, mas que viria a se tornar praxe na FAPESP dali para frente: a convocação de assessores internacionais para dar pareceres sobre projetos da Fundação — o que evitava qualquer tipo de viés pessoal ou institucional nas avaliações. “Quando nós entramos no Soar, dissemos que queríamos fazer a avaliação científica. Era um projeto essencialmente norte-americano. Nós chamamos três assessores internacionais: um alemão, outro inglês e o terceiro italiano. Foi uma aula para mim de como se toma a decisão de financiar o projeto de um telescópio”, relembra Perez.

“Tínhamos que trazer a cultura internacional, todo o ambiente de qualidade que existe lá fora, para cá. O foco tinha que ser aqui”, completa o físico. Nesse aspecto, a FAPESP reforçou progressivamente seus investimentos em programas que previam a participação de pesquisadores de outros países; por exemplo, lançando chamadas conjuntas com agências de fomento e governos estrangeiros para o financiamento de projetos de interesse mútuo. “Foram criados centenas de acordos, convênios e chamadas sobre projetos conjuntos com países como Estados Unidos, Inglaterra, Holanda, Alemanha, Espanha, Itália, Japão, Dinamarca, Suécia e Canadá. Foram muitos. Isso aumentou significativamente a carteira de colaboração internacional da FAPESP”, afirma o físico Carlos Henrique de Brito Cruz, professor emérito e ex-reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que atuou como presidente da FAPESP, de 1996 a 2002, e depois substituiu Perez como diretor científico, de 2005 a 2020.

“A ciência não tem que ter fronteiras; mas a ciência tem fronteira quando ela não está no nível de excelência internacional que se imagina. Quanto mais interações você tiver com instituições renomadas em todo o mundo, mais você tem esse olhar para fora e para a nossa ciência também”, defende a bioquímica Vanderlan Bolzani, professora titular do Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista, em Araraquara, e membro do Conselho Superior da FAPESP (2018-2022).

Comunidade de Paraisópolis, no bairro do Morumbi, São Paulo
Jorge Maruta / Jornal da USP

Uma iniciativa importante criada por Brito Cruz, que ajudou a catalisar essa internacionalização de forma ainda mais intensa a partir de 2011, foi a série de simpósios FAPESP Week. Realizados quase sempre fora do país, com dois a três dias de duração, esses eventos criaram oportunidades únicas de interação tête-à-tête entre pesquisadores brasileiros e estrangeiros, tanto do ponto de vista institucional quanto individual. Entre 2011 e 2019 (até eclodir a pandemia do novo coronavírus), foram realizados 19 simpósios, em 11 países. “Fizemos várias FAPESP Weeks que funcionaram de uma maneira muito interessante, muito adequada, e que fomentaram muitas pesquisas em colaboração com pesquisadores internacionais”, diz o físico Marcelo Knobel, professor titular e ex-reitor da Universidade Estadual de Campinas, que atuou como curador e organizador do programa dentro da FAPESP.

Por mais impressionante que seja o aumento quantitativo da produção nacional, a contribuição dessa produção para o avanço da ciência só se concretiza, de fato, quando essas pesquisas são suficientemente relevantes para serem citadas e referendadas por outros autores. Ou seja, quando “geram impacto”, como se diz no jargão científico. “Os dados quantitativos são importantes, mas a qualidade e o impacto das publicações também precisam ser considerados. Não adianta publicar muito se isso não tiver impacto nenhum no mundo acadêmico”, avalia Knobel. E uma forma cientificamente comprovada de aumentar o impacto de publicações científicas é, justamente, por meio de colaborações internacionais.

FAPESP Week em Beijing, China, 2014
Heitor Shimizu

Assim como o número de publicações, o impacto da ciência brasileira cresceu de forma consistente a partir da virada do século; porém, num ritmo mais lento, permanecendo abaixo da média mundial — à exceção de algumas áreas de maior destaque, como ciências da saúde e ciências sociais aplicadas, segundo um relatório da empresa Clarivate Analytics, referente ao período 2013-2018. “O aumento do impacto é algo que ainda está por ser trabalhado”, diz o médico Luiz Eugênio Mello, professor titular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretor científico da FAPESP desde abril de 2020. Segundo um relatório da Clarivate Analytics, o Brasil tinha 19 cientistas entre os mais citados no mundo no período 2009-2019 — 10 deles ligados a instituições paulistas.

Ranking de produção científica

Baseado no número de artigos adicionados à Web of Science, 2013-2018

Fonte: Research in Brazil: Funding excellence / Clarivate Analytics (2019)

Mello usa uma analogia retirada do livro Armas, Germes e Aço, do biólogo norte-americano Jared Diamond, para mostrar a importância de a ciência brasileira estar sempre conectada com os grandes centros de pesquisa mundial. “Na ideia apresentada no livro, ele mostra por que a Europa prevaleceu como civilização ao longo do tempo, até mesmo na comparação com a China. É como se a Europa, na época em que ainda havia muitos ducados e condados, estivesse formada por várias startups. A troca de informações entre as localidades, que não mandavam umas nas outras, promoveu um enriquecimento mútuo. O fluxo de conhecimento foi fundamental. A mesma coisa podemos falar sobre o desenvolvimento científico. É um processo colaborativo em que pessoas em diferentes lugares interagem fortemente.”

Mesmo com todas as dificuldades criadas pela pandemia do novo coronavírus e pelos sucessivos cortes de investimento em ciência e tecnologia aplicados pelo governo federal a partir de 2014, o Brasil se mantinha até 2020, pelo menos, como o 13° maior produtor de conhecimento científico do mundo, com uma parte expressiva dessa produção ainda se originando do estado de São Paulo. O estado também se destaca nacionalmente como líder em colaborações internacionais e pesquisas feitas em parceria com empresas. —