A FAPESP e as ciências sociais

José de Souza Martins | Professor titular da FFLCH-USP
Eduardo Cesar / Pesquisa FAPESP

Em 2017, o governador do estado, em reunião do secretariado, criticou a FAPESP pelo financiamento de projetos de sociologia. Há pesquisadores que dizem abertamente que as sociais não são ciências. Desconhecimento do que é ciência simplesmente porque nas sociais o objeto pensa. É um objeto cambiante. O que pede ciências de complexo rigor metodológico em face do objeto de dinâmica diversa que é o das outras. No mesmo ano, o gasto da entidade com todos os projetos da área de sociais e humanas foi de apenas 11% do total.

Na mesma linha dessa dificuldade corre a suposição de que na FAPESP está a gênese da ciência e do rigor científico nas universidades e nos institutos científicos de São Paulo.

Como acontece com tudo que acaba se firmando como marco de uma conquista cultural e científica importante e decisiva, como a FAPESP, a tendência é a de imaginar que a corajosa iniciativa de viabilizá-la já é, em si mesma, a causa e o fator do que dela resulta. Como diz Guimarães Rosa, de modo sabiamente brasileiro, “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.

Isso é muito verdadeiro para as ciências sociais, minha área. Mas o é, também, para as biológicas que, nesta hora trágica da pandemia da Covid-19, se revelam ciências de meio do caminho. Isso vale, até mesmo, para as ciências que são definidas como exatas, cuja exatidão é sempre provisória e não raro insuficiente.

O caráter científico da ciência está na dúvida fundamentada, na incerteza explicável, na suposição hipotética que permite aos cientistas de todas as áreas fazerem suas buscas na escuridão do desconhecido. Eles sabem, objetivamente, o que é que não sabem. Aliás, as ciências humanas explicam esse não saber.

Nas celebrações do patrono do Saint John’s College, em Cambridge, em 1994, na cerimônia na capela do College, o sermão que ouvi, do pregador, foi sobre “A influência do calvinismo no desenvolvimento da ciência em Cambridge”. Algo que parecia oposto ao campo da ciência, a religião, que é o da certeza da fé, abrira o caminho de seu contrário ao definir a cultura da necessidade de conhecer e de interrogar o desconhecido. O mais incrível diálogo interdisciplinar que já testemunhei.

Os cientistas de Cambridge têm a humildade de reconhecer-se como sábios da travessia, a começar pelo fato de que não discriminam as ciências humanas, como muitos fazem aqui no Brasil. Nas “high table” dos colleges é regra cientistas de áreas diferentes trocarem ideias sobre os temas de seus respectivos campos de conhecimento como iguais.

Foi assim que, num bate-papo à mesa de Trinity Hall, Sir Roy Calne, o criador da ciclosporina, me contou que passara o dia no Addenbrook Hospital fazendo o primeiro transplante múltiplo da história da medicina: sete órgãos de um único doador transplantados em sete diferentes receptores. Fui a primeira pessoa do mundo, fora do hospital, minutos depois da proeza, a saber dela. Ele achou que um sociólogo era um apropriado interlocutor para conversar sobre aquele feito de sua ciência. Com ele, eu acabaria sendo coautor de um livro, publicado nos EUA, sobre ceticismo na ciência.

Foi assim que o astrônomo de Cambridge Arthur Stanley Eddington montou o experimento que comprovou o que de Albert Einstein era apenas uma hipótese bem fundamentada. Na biblioteca do Caius and Gonville College, Eddington encontrou o artigo em que Einstein expusera sua teoria. E fez a complicada observação astronômica da comprovação.

Prefiro, pois, pensar a efeméride dos 60 anos da FAPESP na linha da interdisciplinaridade e das causalidades recíprocas.

A FAPESP foi obra da Universidade, e não o contrário. Seria um engano supor que a Universidade é o que é graças à FAPESP, se não se levasse em conta que a FAPESP é o que é graças à Universidade. E, então, aí sim, vice e versa. Sem a FAPESP, as universidades paulistas de hoje não seriam o que são.

Assim como a USP e, indiretamente, a Unesp e a Unicamp são o resultado de uma poesia que Júlio de Mesquita Filho improvisou ao contemplar o terreno da Fazenda Butantã para nele instalar a Cidade Universitária. Acompanhado do governador Armando de Salles Oliveira e do jornalista e escritor Paulo Duarte, Mesquita foi pronunciando em voz alta os nomes dos institutos que o governo do estado naquele terreno semearia com a criação da USP, em 1934. E apontava o lugar em que poderiam ser erguidos.

Naquela hora, nascia a possibilidade da FAPESP, como uma estrofe daquele poema improvisado. Poema que expressava valores e princípios científicos das ciências humanas, da sociologia de Émile Durkheim, cuja obra Júlio de Mesquita Filho conhecia e relera na cadeia, preso pela ditadura em consequência de seu envolvimento na Revolução Constitucionalista de 1932. A FAPESP foi fundada mais de um quarto de século depois da USP.

Neste sentido a USP e a FAPESP são filhas das ciências humanas e do positivismo de Auguste Comte, da sociologia da ciência.