A cidadania do nada

João Carlos Salles | Professor de filosofia. Reitor da UFBA
Léo Ramos Chaves / Pesquisa FAPESP

Técnica alguma há de suprimir nossos temores. A vitória sobre a natureza ou sobre as limitações humanas costuma fazer-se com perdas, de sorte que os avanços da ciência amiúde se deixam acompanhar pela fragmentação do humano. Não há, afinal, gesto desprovido de risco, sobretudo do risco de frustração de suas mais generosas promessas. E as promessas da técnica são muitas: alargar nossos braços e nossa vida, prover mais e mais desimpedida informação, gerar conhecimento, esclarecer melhor os homens e torná-los cidadãos por esse esclarecimento, tornar menos desiguais os indivíduos e proteger-lhes, contudo, as diferenças.

A técnica decerto contribui para uma ação solidária e ampliada da capacidade humana, mas não consegue afastar perigosas ambiguidades, mesmo quando feita de pura transparência, como no caso da internet. A exposição total nas redes é uma promessa ou uma ameaça? Ora, sem dúvida, as duas coisas. Por um lado, contém uma promessa de acesso a toda informação; por outro, anula o vício, o vezo, o viés, como se nos sabotasse aquela limitação que nos confere presença e singularidade. Nós nos tornamos seres alargados, em todas as dimensões; entretanto, quem é iluminado por todos os lados tampouco tem sombra; quem se deixa ver por todos os ângulos torna-se invisível. E, em vez de ubiquidade, podemos afundar em uma profunda fragmentação.

Stefan Zweig descreve transformações que afetaram a sensibilidade de sua geração. E isso antes da Segunda Guerra Mundial. Mesmo então, um artista sensível como ele podia lamentar o preço elevado da “organização da simultaneidade”, hoje ineludível. Ou seja, não mais haveria o perto e o distante; e o tempo, como demora, não mais traduziria a distância espacial. Assim, “quando bombas reduziam a destroços as casas de Xangai, na Europa nós, em nossos lares, o sabíamos antes que os feridos fossem retirados dos escombros”. Tanto tempo depois, perguntaríamos agora? O instantâneo agora é a regra, e em sua fugacidade podemos ver corpos despencando de um avião em Cabul, assim como o mundo inteiro, como se estivesse em comunhão, pôde acompanhar a destruição das torres gêmeas. A simultaneidade, porém, pode ter o efeito de nos tornar insensíveis não só ao distante. Expostos às vísceras de todo mundo, à destruição da natureza e à violência sobre o outro, também tudo parece amortecido, sem provocar em nós uma indignação profunda e duradoura, uma que resistisse à próxima informação, ao próximo escândalo.

A sociedade, porém, já não pode renunciar à simultaneidade e seus excessos. Nós mesmos não queremos ser poupados desse turbilhão em que envolvemos nossos corpos físicos e virtuais, pelos dados com que trafegamos e com os quais nos localizamos, talvez mesmo logrando por eles o que chamaríamos de uma identidade. Um exemplo recente. Nossa sensibilidade acadêmica sempre resistiu às amarras do lattes, que todavia não deixamos de preencher. O lattes teve o efeito secundário e deletério de nos impor uma dinâmica de competição superior a qualquer colaboração acadêmica. Também, seu uso se tornou extensivo e abusivo, deixando de ser apenas um repositório público e transparente de informações sobre a pesquisa em nosso país e passando a ser utilizado para medir não só a consistência e constância da produção individual, mas também programas de pós-graduação, bolsas de iniciação científica e coisas inimagináveis. Não obstante tais mazelas, quando a plataforma esteve fora do ar, foram semanas de desolação individual e coletiva, como se nossa densidade acadêmica estivesse prestes a desmanchar e suspensa doravante nossa vida.

Exageros à parte, o recado nos parece simples e um tanto óbvio. A técnica é, sim, ameaçadora e, contudo, nos define. Nossa sociedade da informação seria por natureza mais democrática, porquanto nenhum fato nos parece mais estranho, e estamos todos expostos ao olhar alheio? Como é possível haver opacidade em meio a tamanha visibilidade? Agora e a todo tempo estamos em Rodes, no centro do universo e em um vazio, onde tudo e nada acontece. Não descartamos os instrumentos que ora nos constituem; cabe, porém, a lição de que tais instrumentos não contêm por si seu sentido. Estar nas redes, ter todo acesso, parece colocar-nos no centro de todas as coisas, mas podemos estar então apenas esvaziados. Vivemos talvez o contrário da parábola kafkiana da mensagem de um imperador moribundo que nunca há de chegar ao camponês que, não obstante, sonha com ela a cada noite. Agora, as mensagens são tantas, infinitas em número, não havendo sequer demora. Apesar disso, aceita a ilusão, nosso privilégio de recebê-las todas mostra-se privilégio algum. Às avessas, a mensagem que nunca há de chegar torna-se equivalente às abundantes mensagens que chegam sem descanso.

Vivemos, pois, a imensa transformação de todas as dimensões, da reprodução de nossa força de trabalho, da orga­nização da economia à produção mais refinada de arte ou conhecimento. Nada mais se faz inteiramente fora desse universo, e estaríamos hoje bastante atrasados na constituição de plataformas capazes de tornar nossa presença nas redes mais que alguma fantasmagoria. É certo que, em sociedades distantes de uma matriz democrática radical, sempre serão poucos e insuficientes os esforços para combater o esvaziamento da subjetividade que Kafka chamou de “cidadania do nada”; entretanto, sem a realidade dessa rede, para a qual tanto contribuiu no Brasil o protagonismo da FAPESP, esta­ríamos em uma negação plena desse mundo, imersos na desolação de nele não termos cidadania nenhuma.