As raízes acadêmicas de uma revolução tecnológica

RNP, 2018: das primeiras linhas, que formavam nos anos 1990 um triângulo no Sudoeste, a Rede Nacional de Pesquisa se expandiu pelo país Daniel Kondod

Ao longo dos anos 1980, o debate acirrado no campo da Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), no Brasil, concentrou-se na reserva do mercado da informática para empresas nacionais produtoras de hardware ou software. Uma vez que ele foi sepultado pela lei de informática do governo Collor de Mello, em 1991, a grande discussão a tomar corpo nessa arena, a partir de 1995, voltou-se à privatização das telecomunicações, às bases institucionais e ao modelo adequado para implantação da internet comercial no país.

Fazia sentido, não era nada fora da ordem, uma vez que condições bastante sólidas para tanto estavam dadas, graças ao processo anterior de implantação e expansão da internet no ambiente acadêmico — que tem entre seus marcos fundamentais o primeiro acesso da FAPESP à rede mundial de computadores, em 6 de fevereiro de 1991 (ver matéria "A 'bobagem' de Oscar Sala foi um ato fundador da internet no Brasil"). A partir daí, a Fundação acumularia experiência suficiente na gestão da montagem da infraestrutura física de redes, a ponto de, em 1992, poder emprestar sua expertise à criação da Rede Nacional de Pesquisa (RNP), junto com agências federais e várias instituições de pesquisa do país, sob a liderança do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Assim, em larga medida, São Paulo foi o ponto efetivo de irradiação dessa rede, valendo-se formalmente da Academic Network at São Paulo (ANSP), rede criada e sustentada pela FAPESP desde 1988.

A RNP começaria a trabalhar com uma velocidade de tráfego de 9,6 quilobites por segundo (kbps), o que soa ridi­culamente baixo quando qualquer conexão residencial à internet, hoje, pode facilmente ser dez vezes mais rápida. Era, entretanto, um progresso notável para um sistema que em seus primórdios, via redes Bitnet e Hepnet, de 1988 a 1991, fizera circular textos entre Brasil e Estados Unidos à velocidade de 4,8 kbps.

A conexão se daria, sem necessidade de discagem, via linha telefônica, o que implicava dados passando por fios de cobre até em cabo submarino, quando se tratava de trocar informações com colegas nos Estados Unidos, por exemplo — não havia então fibras ópticas para essa função, lembra Marcos de Oliveira em “Primórdios da Rede”, publicado na edição 180 da Pesquisa FAPESP.

Evolução da RNP

A Rede Nacional de Pesquisa começou a operar com uma velocidade de 9.600 bps, valendo-se de linhas telefônicas, e logo avançou para 64 mil bps

1992
PortoAlegre CampoGrande Manaus Porto Velho Rio Branco Boa Vista Macapá Cuiabá SãoPaulo Recife Teresina Natal São Luís Fortaleza Belém Rio deJaneiro CampinaGrande Vitória Maceió Palmas Salvador Aracaju Brasília BeloHorizonte Florianópolis Curitiba Goiânia JoãoPessoa Santarém Fernandode Noronha Tefé EUA (64 Kb/s) EUA (64 Kb/s) EUA (2 Mb/s) EUA (2 Mb/s) EUA (2 Mb/s) EUA (2 Mb/s) EUA (2 Mb/s) EUA (2 Mb/s) EUA (2 Mb/s) EUA (2 Mb/s) EUA (2 Mb/s) EUA 155 Mb/s(Comercial) EUA 45 Mb/s(Colaboração) Portugal 2 Mb/s(Colaboração) EUA 45 Mb/s EUA 155 Mb/s(Internet 2) EUA 45 Mb/s EUA 155 Mb/s(Internet 2) Internet Comercial (1 Gbps) Internet Comercial (1 Gbps) Rede CLARA (155 Mbps) Whren-Lila (1,24 Gbps) Internet Comercial (3,5 Gbps) RedCLARA (622 Mbps) Americas Light (20 Gbps) RedCLARA (6 Gb/s) Acesso Internacional (10 Gb/s) Acesso Internacional (10 Gb/s) RedCLARA (6 Gb/s) Acesso Internacional (30 Gb/s) Acesso Internacional (10 Gb/s) RedCLARA (6 Gb/s) Acesso Internacional (30 Gb/s) Acesso Internacional (10 Gb/s) RedCLARA (6 Gb/s) Acesso Internacional (100 Gb/s) Acesso Internacional (10 Gb/s) RedCLARA (6 Gb/s) Acesso Internacional (100 Gb/s) Acesso Internacional (3 Gb/s) Acesso Internacional (40 Gb/s)
Fonte: RNP

Ora, “dar um upgrade na RNP” era uma tarefa incontornável para Ivan Moura Campos, engenheiro e doutor em computação científica pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), quando ele assumiu, em 1993, a Secretaria de Política de Informática (Sepin) do MCT, após dois anos como diretor de programas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Àquela altura, note-se, a rede já aumentara bastante sua velocidade de operação.

“A internet no Brasil estava emperrada. A RNP se mantinha historicamente em pé com alguns links de 64 kbps. Havia um monopólio estatal, com a Embratel, Empresa Brasileira de Telecomunicações, dominando o tráfego urbano. Diante desse quadro, nossa tarefa era esse upgrade na rede”, diz Campos, que é professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Isso significava trabalhar para colocar em operação um grande backbone comercial “que ultrapassasse a linha imaginária do Tratado de Tordesilhas no sentido oeste”, enquanto didaticamente se apresentava aos políticos, presidente da República e ministros incluídos, a desconhecida internet e sua importância estratégica. “Nosso plano realmente era interligar todo o país. Na época praticamente havia apenas um triângulo conectando São Paulo, Rio e Belo Horizonte, quando era preciso chegar a todo o litoral e ao interior do Brasil”, diz Campos.

A conexão, vale lembrar, dava-se por meio de antenas de telecomunicações, e eventos aparentemente alheios ao setor podiam ter grande impacto sobre seu desenvolvimento. Assim, a Conferência do Clima Rio-92 ajudou no desenvolvimento físico da rede, propiciado tanto pela aquisição de mais equipamentos quanto pelo fortalecimento das linhas de transmissão para o exterior. De todo modo, ainda havia premência de recursos financeiros para aumentar a velocidade de transmissão e ampliar infraestrutura pelo país afora e, nesse sentido, foi providencial um financiamento voltado a telecomunicações do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

Em 1994, a “linha de Tordesilhas” foi ultrapassada e Goiânia, Cuiabá e Manaus conectaram-se à RNP. Ao mesmo tempo, a expansão no litoral do Nordeste alcançou São Luís e João Pessoa. Ausência de uma bem definida política para a internet e arestas com a Embratel à parte — muitas das ligações da RNP pareciam clandestinas, porque se valiam ainda do protocolo TCP/IP enquanto a Embratel apostava num outro —, as conexões se multiplicavam.

Mas o desenvolvimento da RNP não era o único alvo da Sepin, e dois outros programas, em paralelo, foram classificados naquele momento como prioritários: o Softex 2000 e o ProTeM-CC (Programa Temático Multiinstitucional em Ciência da Computação). Juntos eles formariam o tripé da política do MCT sob o prolongado comando do mineiro José Israel Vargas, químico formado pela UFMG e doutorado pela britânica Universidade de Cambridge. Professor emérito da UFMG, ele seria o titular da pasta de Ciência e Tecnologia de 1992 a 1999, ao longo dos governos de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso.

Israel Vargas (centro) era ministro da Ciência e Tecnologia, enquanto Ivan Moura Campos e Silvio Meira atuavam na Sepin
Fotos 1 e 2: Foca Lisboa | Foto 3: Léo Ramos Chaves / Pesquisa FAPESP

O Softex 2000 reunia uma série de mecanismos para estimular o desenvolvimento de uma indústria de software competitiva, tanto no mercado interno quando no externo, enquanto o ProTeM destinava-se à fomentar pesquisa, desenvolvimento e inovação em ciência da computação, além, claro, da formação de pessoal para garantir massa crítica nos grupos de pesquisa das universidades, relata Campos.

Fazia parte da equipe de Campos na Sepin Silvio Meira, engenheiro eletrônico formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), doutorado em ciência da computação pela Universidade de Kent, Inglaterra. “Eu havia apresentado ao ministro José Goldemberg, ainda no governo Collor, um programa para desenvolver a computação no Brasil. Ele gostou, disse que iria me nomear para fazer aquilo, mas eu não aceitei”, lembra Meira. Anos depois, uma conversa parecida com Vargas o levou à coordenação do ProTeM, sem que precisasse deixar a carreira acadêmica e a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), da qual é hoje professor emérito.

Num olhar retrospectivo, é fácil hoje, segundo Meira, contar uma história positiva daqueles anos de “cheio de obstáculos e tensões duríssimas, principalmente em relação à quebra do monopólio nas telecomunicações”. Ele insiste em que o que se queria era fazer a estrutura funcionar, além de formar pessoas.

Parece haver, na verdade, uma espécie de esprit de corps que leva várias das personagens envolvidas na montagem da estrutura inicial para o funcionamento da internet comercial a lançar um olhar arrevesado para a Embratel. Aqueles eram tempos de disputa entre um pensamento mais liberal na economia e o que ainda se mantinha de um pensamento desenvolvimentista que nada tinha contra a presença do Estado em determinados segmentos estratégicos, pelo contrário. Pode-se dizer também que eram tempos de quase demonização de boa parte das empresas estatais, e a Embratel havia sido longamente uma das joias da coroa nas telecomunicações.

“Os conceitos eram trazidos para dentro do sistema”, obser­va Meira. “Havia pessoas excelentes, como Luiz Antonio Barreto de Castro, Ivan Moura Campos, Gerhard Jacob, que ao trazer esses conceitos davam espaço para nos expressarmos, mas havia, por outro lado, a Embratel, que queria o monopólio, além de pessoas fora da área que diziam que o Brasil precisava mesmo era de bibliotecas e não de partir para o desenvolvimento daquele negócio de internet”, completa.

Em paralelo, entre esses pioneiros havia um outro consenso, o de que era importante desenvolver a ciência da computação, que se mostraria cada vez mais estratégica. “Os financiamentos do ProTeM eram destinados não às instituições, mas aos grupos interinstitucionais. É um programa que está aí até hoje e ainda se expandiu para outras áreas do conhecimento”, observa Campos.

A propósito, um levantamento publicado pelo governo federal em 2004, com base em estudo do próprio MCT, mostrou que em seus primeiros dez anos o programa investiu com recursos previstos pela Lei de Informática de 1991 cerca de R$ 200 milhões (em valores atualizados até julho de 2021 pelo IGP-M da FGV). Apoiou no período 373 projetos, entre pesquisas sobre conteúdos digitais, redes avançadas e internet e cooperações internacionais, fixação de doutores e montagem de laboratórios.

Já quanto ao Softex 2000, uma de suas iniciativas foi a abertura de um escritório em Fort Lauderdale, na Flórida, Estados Unidos, para promover as empresas brasileiras que desde a Comdex/90, em Las Vegas, se apresentavam ao mundo. “O obje­tivo era mesmo invadir a praia deles”, diz Campos, que resolveu abraçar a causa dos empresários e pesquisadores brasileiros.

Havia então no Brasil, tanto quanto nos Estados Unidos, um debate político sobre o fim do investimento governamental na internet, já que seu caráter comercial se apresentava como inevitável, além de desejável.

A espiral da Caravana Rolidei

Dentro desse cenário, Silvio Meira relata a campanha de convencimento dos empresários, entrecortada por episódios extremamente saborosos, a que a equipe da Sepin deu o nome de Caravana Rolidei. É sem disfarces a alusão irônica ao famoso filme Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues, com José Wilker no papel do líder de uma trupe mambembe que percorria as entranhas do país, revelando aos habitantes, em registro farsesco, a sua própria realidade.

“Eu, Ivan, Carlos Lucena e Tadao Takahashi percorremos quase todos os estados para explicar em palestras por que as pessoas precisavam investir em softwares e provedores de internet. Era um novo mercado e poucos entendiam a importância daquilo ou achavam que iria funcionar”, conta Meira. Foi depois de uma dessas palestras, em Recife, que o grupo se reuniu num restaurante japonês na Boa Viagem, que já não existe porque sobre ele passaram um viaduto, e literalmente desenhou a espiral da internet comercial brasileira.

“Eu desenhei a espiral sobre um guardanapo de papel em uma das mesas do antigo Futaba. A ideia era a seguinte: o governo precisava investir em pesquisa e desenvolvimento, entregar os resultados para as empresas, participar da regulação do fomento, lidar depois com os impactos sociais e, então, voltar para o início, para a pesquisa e desenvolvimento novamente”, Meira conta.

O desenho, até certo ponto trivial, mas traduzindo toda uma ideia de como a internet precisava se desenvolver, fez sucesso até nos Estados Unidos, numa palestra apresentada por Ivan Moura Campos. “Ele disse que eu havia desenhado, mas os americanos acabaram chamando de a espiral de Campos”, diz Meira. E assim ficou.

A espiral da internet

O rascunho da estrutura da internet comercial brasileira foi feito por Silvio Meira num guardanapo de papel no Futaba, restaurante de Recife

Fonte: RNP

O Projeto Softex 2000, lançado em julho de 1992, resultaria, em 1997, na Softex, uma organização social civil de interesse público que existe até hoje com a missão de fomentar a transformação digital brasileira. De certa forma, os três programas prioritários do ministro José Israel Vargas continuam vivos, a RNP e o Softex 2000 na forma de Oscips. E não há dúvida de que o fomento do governo à indústria nacional de informática deu polpudos resultados: em 2010, por exemplo, o Brasil registrou seis empresas do setor entre as 50 maiores do mundo. Em 2015, de acordo com o Observatório Softex, o país tinha 90 mil empresas de software e serviços de TI que, juntas, movimentaram cerca de R$ 100 bilhões em receita líquida e garantiram 600 mil postos diretos de trabalho.

O ministro das Comunicações Sérgio Motta, um liberal declarado extremamente influente no governo Fernando Henrique Cardoso, sempre defendeu a tese de que a internet apresentava um valor adicional para o sistema de telecomunicações do Brasil. Por isso, todos os interessados deveriam entrar no sistema, sem necessidade de licença, autorização ou qualquer tipo de outorga, e foi isso que uma portaria interministerial de maio de 1995 assegurou, segundo Campos. A privatização das telecomunicações no ano seguinte levaria as redes privadas a deslanchar ainda mais.

“Todo mundo passou a poder ser um provedor. As universidades teriam 50% de descontos nas linhas que fossem alugadas da Telebras. Além disso, as empresas poderiam se conectar aos proxies, assim como as universidades e os institutos de pesquisa. Cada estado deveria assumir a responsabilidade de interiorizar suas redes a partir dos pontos nas capitais. O usuário final não poderia ser cliente direto das teles. A RNP assumiu a responsabilidade de ser a provedora de backbone comercial no Brasil e em todo esse processo a FAPESP teve um papel fundamental”, afirma Campos.

O atual administrador da estrutura do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.Br), Hartmut Richard Glaser, também entende que a portaria interministerial de 1995 teve enorme relevância para o negócio da internet no Brasil. Com a aprova­ção da medida, o uso de domínios no Brasil passou a ser cobrado e se em 1997, no primeiro recadastramento, havia 27 mil domínios pagos, hoje são 4,5 milhões. O CGI.Br tornou-se em 2003 uma estrutura jurídica oficial e deixou as dependências da FAPESP.

Vale notar que o registro de domínio passou a ser feito pela FAPESP por um daqueles arranjos pouco formais dos tempos pioneiros da internet. “Demi Getschko, que era gerente do CPD da Fundação, recebeu diretamente essa delegação e passou à instituição”, recorda-se Campos. Foram os contatos de pesquisadores brasileiros com colegas dos Estados Unidos que abriram as portas para os dados entrarem e saírem do Brasil via internet, sem nenhum tipo de formalização a partir de governos ou instituições.

A primeira regra para o registro de domínios no Brasil foi consolidada e apresentada à comunidade em 10 de dezembro de 1996, no Ato Normativo 01 do Conselho Gestor da Internet no Brasil, também criado pela portaria interministerial de 1995. Sua evolução ocorreu de forma muito rápida, o que se refletiu nos recursos financeiros para manter e expandir o sistema. Os números oficiais do Comitê Gestor mostram que os domínios br passaram de 727, em janeiro de 1996, para 150.241 em janeiro de 2000. E em 30 de agosto do mesmo ano o Brasil chegava aos 310 mil registros.

Por delegação oficial do Comitê Gestor, a FAPESP passou a ser em 1998 a responsável pelo registro dos domínios de todo o Brasil. E, claro, passou a ser remunerada por isso e a usar os recursos na manutenção e expansão do sistema. Em 2005, a Fundação desobrigou-se dessa função, que, na visão dos dirigentes, era alheia à sua natureza de agência de fomento à pesquisa e só lhe assegurava dores de cabeça. E o próprio CGI.br incumbiu-se dessa função. Nesse momento, havia um fundo de R$ 98 milhões sob administração da Fundação, recursos que até hoje são usados de forma conjunta com o Comitê Gestor em editais para projetos de melhoria da rede.

Entre os casos divertidos dos tempos iniciais da internet no Brasil, Ivan Moura Campos lembra que em 1996 foi convidado a ir ao programa do Jô Soares, de grande audiência na época, para explicar o que era, afinal, essa tal de internet. “Entrei depois do Zeca Pagodinho. Havíamos combinado com a produção que o Jô só poderia navegar pelos lugares previamente acertados, porque estaríamos sem conexão e tudo estava apenas no HD”, ele conta. O apresentador rebelde, claro, não cumpriu o script e a apresentação terminou não sendo grande coisa. Não chegava a ser um problema, porque as entrevistas coletivas à imprensa eram praticamente diárias para que se pudesse explicar os mistérios daquela nova fronteira inovativa que alteraria, muito mais radicalmente do que poderiam supor os mais imaginosos jornalistas, a própria imprensa e o conjunto das relações sociais em escala então inconcebível.