Da Pirajussara à Pio XI

Demi Getschko | Engenheiro eletricista e diretor-presidente do NIC.br
Léo Ramos Chaves / Pesquisa FAPESP

AFAPESP, onde tive a honra de trabalhar, sempre foi e continua sendo uma instituição-modelo em sua área de atuação; e é assim reconhecida internacionalmente. Por ocasião dos 60 anos da Fundação, permito-me relembrar fatos que vivi na relação mais direta com a FAPESP.

Em 1971, comecei a me envolver em informática, com o estágio no antigo CCE-USP — Centro de Computação Eletrônica. Eram tempos em que se programava em Fortran, usando cartões perfurados, que eram lidos em barulhentas leitoras, processados num computador central (no CCE um Burroughs B-3500) e com resultados impressos em formulário contínuo. Após me formar como engenheiro eletricista em 1975, passei ao quadro de analistas do CCE e, em 1976, tive meu primeiro contato com a FAPESP através do professor Geraldo Lino de Campos, então coordenador do CCE. Fui com Geraldo visitar um sobradinho na rua Pirajussara, perto da entrada da USP, onde, espantosamente, estava instalado um B-1726, também Burroughs. Nesse computador, Geraldo estava desenvolvendo um sistema para ajudar a cuidar das bolsas e auxílios concedidos pela FAPESP que, até então, eram tratados em papel, manualmente, na sede da Fundação, perto da avenida Paulista. O sofisticado sistema, inicialmente denominado Sica (Sistema de Informações de Controle Administrativo), já previa o uso de terminais para acesso remoto e foi rebatizado de Sirius. Comecei, sob a liderança de Geraldo, a me envolver também na programação do Sirius. Quem aparecia frequentemente nos serões da Pirajussara, para tomar um cafezinho e saber dos progressos do sistema, era o professor Oscar Sala. Figura já emblemática em ciência e tecnologia no país, que dera corajoso e firme apoio à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em tempos difíceis e fora diretor científico da FAPESP, Sala estava agora muito empenhado em dotá-la de um Centro de Processamento de Dados (CPD) e de um sistema informatizado, autônomo e eficiente, para suportar as operações da Fundação. Como as instalações da FAPESP, na rua Pio XI, ainda não estavam prontas para receber um CPD, o jeito era ganhar tempo trabalhando na improvisada salinha daquele sobrado! Num certo dia, um sábado com risco de chuva iminente, o B1726 foi colocado num caminhão semiaberto e o levamos para ser entronizado em seu lugar definitivo: o novo e moderno prédio da FAPESP.

Em 1985, o professor Sala convidou-me para uma conversa na FAPESP com o professor Alberto Carvalho da Silva. Devido a mudanças, tanto na FAPESP como no CCE-USP, foi-me proposto sair do CCE e vir tocar o CPD da FAPESP, então já plenamente implantado e funcional. A informática, na FAPESP, era ligada ao diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo (CTA), exatamente o saudoso professor Alberto.

Uma curiosidade do computador central da FAPESP, o B-1726, é que ele contava com uma expansão “caseira” da memória principal. Placas de circuito impresso foram projetadas e construídas pelo professor Geraldo e, assim, ganhou dobrada a capacidade de trabalho. Aliás, o CCE-USP já tinha tradição em desenvolvimentos próprios: quem quisesse poderia receber uma versão alterada do sistema operacional original da Burroughs (MCP), conhecida como MCPUSP e desenvolvida por Alberto Gomide, que também viria a trabalhar no CPD da FAPESP.

A próxima iniciativa brihante do professor Oscar Sala foi buscar soluções para a flagrante necessidade de conseguir conectar as universidades do estado às redes internacionais. Foi proposta a FAPESP como entidade centralizadora do lado brasileiro e, como ponto de conexão no exterior, sondar a possibilidade de conseguir ajuda do laboratório Fermi, em Batavia, Illinois, nos Estados Unidos. O Fermilab, já bem conhecido dos físicos da USP, era um “hub” da rede acadêmica HEPNet (High Energy Physics Network), além de integrar a Bitnet (Because It’s Time Network), duas redes de interesse!. A adição de um microcomputador Microvax 3600, da Digital (DEC), ajudaria muito na tarefa, dado que a HEPNet era implementada sobre protocolo da DEC, o DECNet. Já a Bitnet usava um protocolo nativo da IBM, o RSCS, mas havia como emulá-lo em máquinas DEC. Assim, em 1988, com um CTA composto por figuras ímpares como Alberto Carvalho da Silva, Flávio Fava de Moraes e Paulo Isnard Ribeiro de Almeida, e com o Conselho Superior presidido por Oscar Sala, a FAPESP lograva sua conexão às redes acadêmicas internacionais.

No front interno, era a hora de trocar de computador central e a escolha foi para outra máquina da DEC, um VAX-6320. A readequação necessária para garantir a agilidade e a eficiência adminitrativa da FAPESP em suas atividades-fim levou a um novo sistema: o CRAB (Cadastramento e Recuperação de Auxíios e Bolsas). A escolha do nome preservou de forma humorada uma relação cósmica: enquanto Sirius lembrava a estrela de maior brilho, CRAB é peculiar nebulosa resultante da explosão de uma supernova.

De volta às redes, em 18 abril de 1989, a IANA delegou o domínio .br ao time que operava redes na FAPESP e, no mesmo ano, estabeleceu-se intensa cooperação com a nascente RNP. Finalmente, em 6 de fevereiro de 1991 concluiu-se outra transição: adicionar o acesso à internet, usando o TCP/IP no canal com o Fermilab. Reproduzo texto que Gomide enviou ao Fermilab, anunciando a ativação definitiva: “I’m glad to annouce that the link FAPESP-Fermilab (ESNet) is ready to operate, running TCP/IP over Decnet. Multinet, from TGV, implements the connection and the domain name server for the top-level .BR domain. Thus, we’ll have a stable connection between Internet and RNP, the Brazilian Academic Network. We should also emphasize the very significant contribution from all the parts involved in the activation of this link, and wish all the best for the partners of the current networking efforts”.

Que os próximos 60 anos sejam ainda mais luminosos! Per aspera ad astra!