A arte de multiplicar cérebros e recursos

Uma equação sobre como produzir resultados científicos, por Glaucius Oliva Glaucius Oliva

Como todo bom físico e bioquímico, o professor Glaucius Oliva, da Universidade de São Paulo, tem uma equação na ponta do lápis para descrever quase tudo à sua volta; inclusive a própria ciência, que ele pratica há mais de 40 anos, desde os tempos da graduação. “Se eu pudesse escrever uma equação, diria que ciência é igual a ‘cérebros’ multiplicado por ‘recursos’”, pondera ele. “Eu coloco multiplicação porque se você tiver cérebros em quantidade, porém zero de recursos, esse produto vai dar zero. O inverso também é verdadeiro: você pode ter muito recurso financeiro, mas poucos cérebros, e o resultado será pequeno.”

Uma equação simples, cuja lógica se aplica com intrincada perfeição aos grandes projetos e programas que ajudaram a projetar a imagem de excelência da FAPESP para o mundo nas últimas décadas, começando pelo pioneiro Programa para o Desenvolvimento da Bioquímica (Bioq-FAPESP), que inovou na forma de fazer ciência no Brasil, ainda na década de 1970; passando pelo histórico Programa Genoma FAPESP, que plantou as raízes da biotecnologia no Brasil, entre o fim da década de 1990 e o início dos anos 2000; e chegando aos atuais Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids), referência em pesquisa inovadora e colaborativa no país, entre tantos outros programas emblemáticos já lançados pela Fundação, que se especializaram em multiplicar muitos cérebros por muitos recursos, por muito tempo, com resultados extraordinários.

Sem nunca perder de vista a importância dos auxílios e bolsas concedidos a pesquisadores individuais, que são a matéria-prima fundamental da atividade científica, a FAPESP desenvolveu ao longo de sua história uma capacidade ímpar de pensar, estruturar e implementar grandes projetos de pesquisa — multidisciplinares, multicêntricos e de longa duração —, que têm se mostrado essenciais para escalonar a produção de resultados e turbinar o desenvolvimento científico e tecnológico de temas estratégicos para o país, como bioenergia, biodiversidade, mudanças climáticas, desen­volvimento de fármacos, novos materiais, tecnologia da informação e saúde pública, entre muitos outros.

A bióloga molecular Helena Nader e seu orientador de doutorado Carl Dietrich, ambos da Unifesp, em 1985. Dietrich foi um dos idealizadores do Programa Bioq-FAPESP, que vigorou de 1971 a 1978 e formou várias lideranças da comunidade científica atual — entre elas, Nader
Acervo pessoal Helena Nader

“Os projetos mais robustos agregam equipes de pesquisa multidisciplinares e possibilitam compartilhamento de infraestrutura de pesquisa, com menor investimento em duplicações e maior foco nos avanços científicos e tecnológicos em si”, observa Marilza Vieira Cunha Rudge, professora emérita da Faculdade de Medicina de Botucatu, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que já foi conselheira da FAPESP e coordena um projeto multicêntrico de pesquisa na área de saúde gestacional. É uma forma inteligente e eficiente que a Fundação encontrou, segundo ela, de transpassar a competição entre cientistas individuais e fomentar a cooperação entre institutos e grupos de pesquisa, para chegar a resultados maiores.

“Quando uma ideia nasce exclusivamente na cabeça de uma pessoa, a chance de acerto é menor do que quando é fruto de um consenso, uma discussão estruturada e profunda, e por isso sempre me refiro ao enraizamento e interlo­cução da FAPESP com a comunidade de ciência e tecnologia”, pondera o médico Luís Eugênio Mello, professor titular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e atual diretor científico da FAPESP. “Na execução de qualquer estratégia há que se considerar os elementos que podem causar dificuldades, ou potencialmente limitantes, e quais as oportunidades que podem gerar sinergia e aumentar a chance de sucesso. A percepção desses elementos é decorrência direta de conversa, da troca, do bate e volta, porque ideias que são debatidas se fortalecem.”

O bioquímico Walter Colli, hoje professor titular aposentado do Instituto de Química da USP, foi um dos idealizadores do Programa Bioq-FAPESP, que construiu as bases para o avanço da bioquímica paulista na década de 1970. Foto de 1974
Acervo pessoal Walter Colli 

O Bioq-FAPESP foi o pioneiro dessa concepção. Lançado em 1971, com US$ 1 milhão de orçamento e a missão de catapultar a ciência paulista para a linha de frente da bioquímica internacional, o programa foi projetado para durar três anos, mas durou sete, e deixou um legado que permeia a identidade da FAPESP até os dias atuais. Não só em função dos resultados científicos que produziu, mas também das lideranças científicas que ajudou a formar e do novo modelo de gestão que ajudou a criar, baseado em análises de mérito rigorosas, que eram realizadas por uma banca de avaliadores estrangeiros independentes — entre eles, o bioquímico americano Marshall Nirenberg, um dos laureados com o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 1968 pela elucidação do chamado “código genético”.

Entre 1971 e 1978, o Bioq financiou 34 projetos de pesquisa, patrocinou a vinda de 20 cientistas do exterior como professores visitantes e formou 108 mestres e doutores. Entre eles, vários jovens talentos que se tornaram lideranças importantes da comunidade científica nacional, como a bióloga Helena Nader, professora titular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), presidente de honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC). “O Bioq foi o primeiro projeto transformador do estado de São Paulo. Você vai para outros estados e todos dizem: queríamos ter tido um Bioq, porque foi algo que transcendeu a bioquímica”, diz Nader. Desde o início, o programa contemplava o uso de equipamentos multiusuários e vinha incutido de uma visão de inter e transdiciplinaridade que era extremamente inovadora para a década de 1970, ressalta ela. “No Bioq já tinha tudo isso inserido, então a FAPESP realmente estava à frente de seu tempo.”

O Programa Bioq-FAPESP foi inovador na incorporação de pesquisadores estrangeiros, de renome internacional, aos processos de análise e revisão de projetos. Entre eles, o bioquímico americano Marshall Nirenberg, ganhador do Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 1968
National Institutes of Health

Tão à frente que levaria mais de uma década para a própria FAPESP lançar algo semelhante. Em 1992, a Fundação se inspirou no Bioq para criar uma nova linha de fomento, direcionada a projetos de maior envergadura (chamados Temáticos), envolvendo vários pesquisadores e com até cinco anos de duração — bem mais do que os projetos chamados Regulares, que duram no máximo dois anos e têm um único pesquisador responsável.

Tal upgrade de ousadia só foi possível graças ao aumento da cota-parte da FAPESP na arrecadação tributária do estado (de 0,5% para 1%), introduzido na Constituição estadual de 1989. Luiz Gonzaga Belluzzo, professor titular do Instituto de Economia (IE) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), era o secretário de Ciência e Tecnologia do estado de São Paulo à época. Ele lembra que, no início de 1989, foi procurado pela diretoria da FAPESP para estudar a possibilidade do aumento da cota-parte. O governador Orestes Quércia, então, pediu que Belluzzo organizasse uma visita à FAPESP; e assim foi feito, em 13 de abril de 1989.

Investimento de longo prazo

Linha do tempo dos principais programas e projetos de grande porte da FAPESP

“A partir daí, participei de várias reuniões na FAPESP para discutir os chamados projetos temáticos”, relata Belluzzo. Ele lembra que houve uma certa resistência por parte da comunidade científica, receosa de que os Temáticos reduziriam o apoio da Fundação a projetos individuais, que eram o foco da Fundação até então. “As resistências eram naturais porque as pessoas temiam que o espaço delas fosse ocupado, mas a diretoria científica sempre foi muito cuidadosa”, avalia Belluzzo. “Quem sempre me ajudou nesse debate foi o Fava e depois o sucessor dele, o José Fernando Perez. Os dois foram muito importantes no estabelecimento dessas novas modalidades de projetos de pesquisa.”

Mais adiante, desse mesmo solo fertilizado inicialmente pelo Bioq, nasceria em 1997 o Genoma FAPESP, primeiro de uma série de programas voltados à pesquisa e ao desenvolvimento de temas estratégicos para o país — alguns deles com mais de 10 ou até 20 anos de duração, como o Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade (o famoso Biota FAPESP), lançado em 1999 e ainda em pleno vigor, com mais de 1,2 mil participantes do Brasil e do exterior (mais informações sobre os programas temáticos na segunda reportagem deste fascículo).

“São iniciativas mais estruturadas, de longa duração, que visam preencher lacunas importantes”, diz o presidente da FAPESP e professor titular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, Marco Antonio Zago. A concepção desses grandes projetos e programas multicêntricos, segundo ele, reflete um processo de amadurecimento da Fundação; mas é importante ressaltar que todos os projetos, independentemente do tamanho, têm o papel de induzir o desenvolvimento da ciência. Os projetos de iniciativa individual, ainda hoje, são os que mais recebem apoio da FAPESP, apesar de os grandes programas frequentemente “assumirem a frente do palco”, aponta Zago. “Temos que cobrir todo o espectro de habilidades que os nossos cientistas têm.”

Olhar de longo prazo

O aumento do fluxo de recursos para a Fundação, a partir de 1989, foi essencial para esse processo de amadurecimento; mas a FAPESP não criou esses programas de maior fôlego só porque passou a ter mais dinheiro. A Fundação respondeu a exigências inerentes à própria ciência. “Existem vários projetos que demandam mais do que dois, três, cinco anos para dar certo”, destaca Roberto Marcondes Cesar Junior, professor titular do Instituto de Matemática e Estatística da USP e coordenador do programa dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids), iniciados em 2000.

Cada Cepid é um projeto apoiado pela FAPESP por até 11 anos — o financiamento é inicialmente concedido para um período de cinco anos, podendo ser renovado por mais dois períodos de três anos. “Esse programa é o único dessa magnitude no país”, diz Glaucius Oliva, professor titular do Instituto de Física de São Carlos, da USP, e coordenador do Centro de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade e Fármacos (CIBFar), um dos 17 Cepids apoiados atualmente pela FAPESP.

Floresta nativa da Mata Atlântica (primeiro plano) e floresta em regeneração num antigo plantio de eucaliptos (“paliteiros”, ao centro), tema de estudo do programa Biota
Paulo Guilherme Molin

Em seu primeiro edital, o programa selecionou 11 centros de pesquisa, que funcionaram de 2001 a 2013. A segunda chamada, lançada em 2011, escolheu 17 projetos (nove inéditos e oito renovados do edital anterior), com vigência até 2024 e financiamento de R$ 760 milhões da FAPESP — mais os salários de pesquisadores e outros custos operacionais, que ficam a cargo das instituições-sede. Alguns centros também recebem recursos de empresas parceiras. Um terceiro edital, anunciado em junho de 2021, vai escolher outros 18 centros, para receber até R$ 40 milhões de financiamento cada um, nos primeiros cinco anos de operação. Os temas de pesquisa abordados até aqui são bastante variados, desde ciências matemáticas aplicadas à indústria até obesidade, células-tronco, desenvolvimento de fármacos e violência urbana.

Segundo Marcondes, desde a criação desses projetos de maior fôlego houve uma curva de aprendizado muito acentuada de todos os atores envolvidos. “Ninguém sabia construir esses projetos de longo prazo porque ninguém fazia isso no Brasil”, diz. “O sistema paulista aprendeu esse modelo muito bem. Tanto que as propostas que surgem para avaliarmos hoje são muito mais maduras. É como se a gente estivesse entrando em velocidade de cruzeiro, em algo razoavelmente confortável, porque todo mundo aprendeu o que precisa ser feito.”

Os resultados são expressivos: em 20 anos multiplicando cérebros por recursos, os 230 pesquisadores principais associados aos Cepids publicaram mais de 14 mil trabalhos científicos, que já foram citados mais de 278 mil vezes por outros cientistas, segundo um levantamento feito por Marcondes no início de 2021, com base na plataforma Scopus. “Um centro não é juntar dinheiro e distribuir para cada um fazer o que está a fim de fazer”, completa ele. “Não é um bando de tartaruguinhas que vão cada uma pro seu lado, porque se fosse desse jeito a FAPESP não criava o programa e continuava com os projetos pequenininhos.”

Inovação, uma nova missão

Ao mesmo tempo que possibilitou ampliar a escala de seus projetos de pesquisa, a elevação da cota-parte da FAPESP (de 0,5% para 1%, em 1989) atribuiu uma missão adicional à Fundação: a de promover o desenvolvimento “tecnológico” do estado, e não apenas o científico. Isso exigiu, por consequência, que a Fundação passasse a interagir de forma muito mais próxima com empresas.

“Esse meio porcento a mais veio com uma responsabili­dade extra. Desde aquela época, as duas gestões de diretorias científicas que me antecederam [dos professores José Fernando Perez, de 1993 a 2005, e Carlos Henrique de Brito Cruz, de 2005 a 2020] começaram a trabalhar diferentes formas de interação com o setor empresarial”, relata Mello. Dessas tratativas, ao longo do tempo, nasceram outros três programas emblemáticos da Fundação: o de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (Pite), em 1995; o de Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), em 1997; e o dos Centros de Pesquisa em Engenharia (CPEs), lançado em 2014.

“Existe, então, uma perspectiva de se ampliar progressivamente o investimento em inovação”, observa Mello. “Entendo que uma parte expressiva da comunidade científica olhe isso com temor; mas, por outro lado, é preciso entender que se trata de um círculo virtuoso, porque à medida que você aumenta a atividade empresarial, a rentabilidade dos empreendimentos e o pagamento de impostos, aumenta o crescimento da economia e vem mais recurso para a FAPESP.”

O Centro de Pesquisa, Educação e Inovação em Vidros, um Cepid sediado na UFSCar, é focado na pesquisa e desenvolvimento de materiais vítreos
Léo Ramos Chaves / Pesquisa FAPESP

Os CPEs surgiram como uma espécie de filho híbrido dos Cepids com o Pite, num modelo em que empresas e instituições públicas de pesquisa unem forças para resolver desafios científicos e tecnológicos de interesse mútuo, com apoio da FAPESP. Os centros são concebidos com vigência de cinco a dez anos, e o financiamento é dividido entre as partes: FAPESP, empresas e instituições-sede (responsáveis por despesas operacionais e salários). As parcerias vigentes envolvem grandes empresas do ramo de energia, biotecnologia, informática e cosméticos, por exemplo. Os primeiros centros eram fortemente voltados para as engenharias (daí o nome CPEs), mas alguns projetos expandiram esse escopo para outras áreas do conhecimento, dando origem aos chamados Centros de Pesquisa Aplicada (CPAs) — que funcionam no mesmo formato, apenas com um nome diferente. No total, são quase 20 centros, com investimento de R$ 260 milhões da FAPESP. “As empresas investiram no mínimo isso, também; mas em geral investem mais”, explica Marcondes, que também coordena o programa. “As universidades mobilizam normalmente o dobro do investido pela FAPESP, porque são elas que pagam o salário do professor, conta de luz, água, a infraestrutura física em geral.” Somando tudo isso, o investimento nos CPEs e CPAs ultrapassa R$ 1 bilhão. Os projetos candidatos são selecionados por meio de chamadas públicas, lançadas pela FAPESP, em parceria com as empresas associadas, ou por demanda de cientistas, já articulados com empresas, que procuram a Fundação (mais informações sobre os Cepids e CPEs na terceira reportagem deste fascículo).

Essa expertise já consolidada da FAPESP em projetos amplos — em escopo e escala — se deve a um alicerce institucional que permite à Fundação planejar com segurança seus próximos passos, sem jamais tropeçar ou dar saltos no escuro. “A FAPESP é política de Estado, não é política de governo. Ameaças acontecem, é claro, mas a política de Estado prevalece”, diz Helena Nader. “Imagina se em cada mudança de governo ou parlamento fossem alterados a infraestrutura e o foco. Não dá.”

O fato de a Fundação ter recursos — e autonomia para administrá-los — assegurados na Constituição estadual, com repasses historicamente cumpridos pelo Poder Executivo, permite a ela lançar iniciativas ambiciosas de longo prazo, sabendo que terá condições de sustentá-las até o fim dos projetos. Em 60 anos, a FAPESP nunca deixou de pagar uma só conta de um compromisso assumido. “Não tem muitas instituições ou pessoas físicas no Brasil que possam dizer isso”, comenta Marcondes.

O estatuto e o regimento da FAPESP consolidaram outro pilar da sua capacidade de investimento a longo prazo: a possibilidade de guardar os recursos não utilizados num determinado exercício orçamentário para uso futuro — dife­rentemente de outras agências, que são obrigadas a gastar tudo no mesmo ano ou devolver o dinheiro. Em 2020, por exemplo, a FAPESP teve uma receita de R$ 1,441 bilhão e desembolsou R$ 987 milhões em fomento. O dinheiro que não é gasto imediatamente fica aplicado num fundo de apoio ao orçamento da Fundação para ser utilizado nos anos seguintes, assegurando, assim, o financiamento dos projetos de longa duração e o lastreamento de novas iniciativas.

As cifras são vistosas, mas não se trata apenas de uma questão de volume de recursos, e sim de sua previsibilidade e sustentabilidade — fatores cruciais no caso da ciência, que nunca, em nenhum lugar do mundo, combinou com imediatismo. “Ter um financiamento definido e destinado, confiável e previsível, é uma coisa que as universidades federais até hoje não alcançaram”, diz Soraya Smaili, professora titular do Departamento de Farmacologia e duas vezes reitora da Unifesp. A capacidade de implementar grandes programas é importante, também, para demonstrar a importância da ciência e da própria FAPESP para a sociedade, diz ela. “Fica mais claro qual é o papel da Fundação, que, ao mesmo tempo, nunca deixou de financiar a pesquisa básica, que é a base de toda a ciência.”