A ciência a serviço da sociedade

Paulo Artaxo | Professor titular do Instituto de Física da USP e co-coordenador do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais
Léo Ramos Chaves / Pesquisa FAPESP

Há muitas maneiras de se fazer boa ciência. Coope­ração, criatividade, dedicação, inovação e ética são alguns dos componentes essenciais para uma ciência de qualidade em prol do avanço de nossas sociedades. Trabalhar em redes de colaboração amplas, multidisciplinares e focadas em temas estratégicos para o país também é fundamental. Para resolver grandes e complexos problemas, precisamos de uma estrutura que contemple riscos e seja realizada por grandes equipes. Em geral, esses projetos têm financiamentos de longo prazo e certa autonomia no uso dos recursos financeiros. Alguns exemplos no Brasil são os Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids), da FAPESP; os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), do governo federal; e a Rede Genômica, da Fiocruz.

Há também redes menos institucionalizadas, como a do Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera da Amazônia (LBA), composto de cientistas brasileiros e internacionais que buscam entender o funcionamento do ecossistema amazônico. E o Atto, um observatório de longo prazo único no planeta, com uma torre de 325 metros de altura erguida em plena floresta amazônica, operado por cientistas brasileiros e alemães em várias áreas do conhecimento.

A FAPESP fomenta também os chamados programas temáticos — Biota, Bioen, Mudanças Climáticas e eScience —, que buscam coordenar esforços de centenas de cientistas em torno de temas estratégicos para o desenvolvimento do país. O programa Biota já tem 21 anos e sua tarefa é hercúlea em termos de encontrar maneiras de fazer um uso sustentável da complexa biodiversidade brasileira. O Programa FAPESP de Mudanças Climáticas congrega centenas de cientistas dedicados a entender o impacto do clima nos biomas brasileiros, desenvolvendo estratégias de adaptação às mudanças climáticas e melhores alternativas para reduzir emissões de gases de efeito estufa.

Todas essas iniciativas, em diferentes áreas do conhecimento, têm um ponto em comum: juntar esforços e fazer ciência em temas complexos, ajudando a sociedade a resolver grandes questões estratégicas. Seja nas ciências humanas, nas engenharias, nas ciências básicas ou aplicadas, precisamos de grandes estruturas de pesquisas para estudar problemas científicos e oferecer soluções. Em geral, para alcançar esses objetivos, precisamos de projetos de longa duração, entre 5 e 10 anos.

A gestão desses projetos é complexa, considerando que envolve centenas ou milhares de pesquisadores trabalhando juntos e de maneira coordenada, com um foco comum. Mas os resultados compensam. Ciência, por princípio, é uma atividade interdisciplinar. É importante, também, investir na formação de recursos humanos visando à qualidade e à competitividade.

Os grandes projetos trabalham muito com a comunicação científica, componente fundamental para levar seus resultados ao conhecimento da sociedade e dos formuladores de políticas públicas. Afinal, ciência só tem sentido se proporcionar melhoria na qualidade de vida da população e, para isso, precisa de políticas públicas estratégicas e eficientes.

Importante destacar que esses grandes projetos só são viáveis graças à visão da FAPESP de fazer investimentos de longo prazo, com grande escala, e planejados olhando as necessidades da sociedade, da indústria e de nosso sistema socioeconômico.

Um benefício importante aos pesquisadores participantes é que, em geral, esses grandes projetos produzem artigos nas melhores revistas internacionais, como Science e Nature, com expressivo número de citações. Isso melhora em muito o desempenho dos pesquisadores participantes e faz com que sua visibilidade internacional e nacional seja aumentada e mais valorizada.

Vale ressaltar que nossas universidades brasileiras ainda são extremamente fechadas em suas áreas específicas, dificultando em muito a formação mais ampla dos alunos. Alunos de física na Universidade de Harvard (EUA), por exemplo, têm que fazer uma parte de seus cursos em economia, ciências sociais e áreas humanas correlatas, o que oferece aos alunos uma visão muito mais complexa da sociedade e os torna mais capazes de enfrentar novos desafios.

Cooperações internacionais são essenciais para fazer ciência de ponta, e a FAPESP tem várias linhas de fomento para que pesquisadores e estudantes brasileiros possam estruturar parcerias sólidas em laboratórios de ponta fora do país. O Brasil tem papel de liderança mundial em muitas áreas estratégicas. Temos inteligência em nossas universidades e institutos que trabalham incessantemente na busca do conhecimento necessário para construirmos um país e um planeta mais resilientes e ajudar a construir uma sociedade mais justa, mais próspera e com menores desigualdades sociais.

A ciência é feita para auxiliar na construção de uma sociedade melhor, seja ampliando os horizontes da humanidade, seja entendendo como funciona o universo e cada um de nós mesmos. Juntar forças nessa tarefa é essencial, cooperando, trabalhando junto, complementando ideias e experimentos. Construindo uma sociedade mais justa, enfim. A FAPESP tem realizado um importante papel de incentivo na busca às fronteiras do conhecimento, além de contribuir para o desenvolvimento de nossa sociedade.