Geração e transferência de conhecimento

Marta Arretche | Professora titular da FFLCH-USP; pesquisadora e ex-diretora do CEM
Léo Ramos Chaves / Pesquisa FAPESP

Os Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) são uma modalidade de financiamento à pesquisa da FAPESP e dos quais se espera que, além de produzir novos conhecimentos, também encontrem formas criativas de transmitir esse conhecimento à sociedade. O interesse público por temas científicos pode não parecer muito visível a olho nu. Mas a proliferação de mídias sociais é uma de suas expressões positivas. Também se espera de um Cepid que seja capaz de transferir os conhecimentos obtidos por meio de pesquisas científicas a grupos e instituições mais especializados, que têm um interesse direto na aplicação destes conhecimentos. Estes não têm tempo para produzir conhecimentos que requerem grande investimento de investigação, mas grande interesse na aplicação prática de seus resultados. Em suma, de um Cepid se requer que, além de produção acadêmica de excelência, também sejam encontradas formas criativas, amigáveis e ágeis de difusão e transferência do conhecimento.

A exigência da FAPESP não poderia ser mais apropriada. Dúvidas sobre a relevância de reservar parcela dos recursos públicos para financiar a ciência não são apenas fruto de mentes negacionistas. Os recursos são limitados e as deman­das, inúmeras e urgentes. É legítima a exigência de que os impostos pagos pelo contribuinte sejam empregados do modo mais eficiente possível. É legítima a demanda de que sejam justificadas as prioridades no uso da receita pública. Cabe aos cientistas — também os cientistas sociais — devolver à sociedade, sob a forma de informação e transferência de conhecimento, o produto que resulta do investimento que recebemos. Esta não é uma responsabilidade de um ou outro projeto de pesquisa, mas do conjunto da comunidade científica. A vantagem de um Cepid é que ele deve ser ambicioso o suficiente para investigar um problema científico complexo que requeira a colaboração de diferentes equipes de pesquisa, assim como deve ser criativo nas modalidades de divulgação dos conhecimentos obtidos. Nem todos os projetos de pesquisa precisam ter esta característica, mas um Cepid — em qualquer área do conhecimento — deve ter estas ambições.

No CEM, produzimos conhecimento básico. Produzimos muitos livros, capítulos e artigos. Acreditamos ter dado uma contribuição acadêmica relevante aos estudos sobre polí­ticas públicas, sobre as condições de vida nas cidades, sobre as abissais desigualdades do Brasil, sobre os desafios que a sociedade brasileira enfrenta na direção de tornar-se uma sociedade civilizada. Ao publicar trabalhos no Brasil e no exterior, acreditamos também ter dado uma contribuição relevante à internacionalização da ciência social produzida no Brasil.

Mas também fizemos um grande esforço para criar e disponibilizar ferramentas que possam ser úteis a quem faz pesquisa em temas próximos aos nossos. O Brasil tem uma tradição (que esperamos que seja preservada) de produção pública de dados na área social. Conta com dezenas de fontes de dados de excelente qualidade. Dados disponíveis, abertos e gratuitos não são, contudo, o mesmo que bases de dados que podem ser empregadas diretamente em estudos. Converter as primeiras nas segundas requer muito trabalho. Não faz sentido que cada pesquisador realize individualmente este trabalho de conversão. Acreditamos que este é um serviço que pesquisadores podem prestar aos demais pesquisadores. Por isso, disponibilizamos regularmente bases de dados com tutoriais para uso da comunidade científica. As bases de dados que disponibilizam têm temas, escopo e abrangência muito distintos. Mas temos muito orgulho de ter tornado pública e aberta uma gama muito ampla de bases de dados.

Também temos feito um grande esforço de produzir conhecimento que possa ser convertido em políticas públicas pelos órgãos públicos. Acreditamos que nossa missão é fornecer informação para tomadores de decisão, de qualquer nível de governo. Estes não têm tempo para consumir textos acadêmicos. Com frequência, não têm recursos para produzir informação sólida sobre o contexto no qual pretendem atuar. Precisam de notas técnicas, informes, dados sólidos, que tornem menos incertas as inúmeras decisões que têm de tomar em um curto espaço de tempo.

Por fim, acreditamos que também é nossa missão encontrar formas criativas de permitir que os cidadãos interessados possam se informar. Há enorme interesse público por informação solidamente fundamentada. A maioria da população não é certamente negacionista. Mas também não é acadêmica. Dispõe de tempo limitado para buscar a informação que lhe interessa. Desta forma, cientistas sociais podem e devem encontrar formas inovadoras, ágeis e amigáveis de satisfazer este interesse daqueles que nos financiam com seus impostos. Assim, também produzimos sistemas interativos e vídeos pelos quais procuramos difundir o conhecimento científico que geramos.

Somos muito gratos à FAPESP por ter nos dado esta oportunidade de atuar como acadêmicos em múltiplas frentes. Mais que isso, somos muito gratos à FAPESP por ter nos cobrado pela via de um Cepid a realização destas múltiplas e desafiadoras missões.