Ciências humanas e sociais, pilares da democracia

A facção PCC (Primeiro Comando da Capital) realizou uma série de ataques em São Paulo em 2006, incluindo atear fogo em ônibus, como este em Cidade Tiradentes Evelson de Freitas / Estadão Conteúdo / AE

As humanidades têm a tradição de colocar o dedo nas feridas enquanto cultivam a cidadania alicerçada na história não falsificada. Não à toa são alvos preferenciais de governos autoritários, justamente por serem os esteios da democracia em seu sentido mais amplo, emancipador e concreto, ainda que seus “produtos” sejam em geral imateriais. O ataque mais soft a essas ciências segue um roteiro manjado: a velha retórica de que ciência boa é aquela que gera tecnologia e que as ciências humanas e sociais não passam de abstrações teóricas descartáveis, sem aplicabi­lidade prática.. Equívoco total. “O discurso da busca de utilidade imediata parece ingenuamente positivo, mas na verdade é uma tentativa de coibir o pensamento crítico, sem o qual a sociedade não tem como se orientar, fica totalmente no es­curo”, diz André Singer, professor titular do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP).

Ciente disso, desde a sua gênese, em 1962, a FAPESP assegura essa reflexão imprescindível sobre a sociedade, amparando as ciências humanas e sociais com bolsas, recursos financeiros e atenção equânime em seus programas de pesquisa e canais de divulgação científica. Os temas de investigação dos pesquisadores auxiliados pela agência são os mais diversos: do resgate do pensamento no período colonial brasileiro aos estudos pós-coloniais; da lógica da guerra no século XXI ao modus operandi de milícias e facções criminosas; do golpe militar no Brasil em 1964 — e seus ecos persistentes na atualidade — às razões subjacentes da crise política em que o país mergulhou de cabeça em 2013.

Repressão a manifestação em Porto Alegre (RS), no dia do golpe militar, 1º de abril de 1964
Acervo Iconographia

“A FAPESP sempre tratou a área de humanidades com todo respeito e dedicou espaço importante para a pesquisa nessa área. Então essa questão para a agência é muito bem resolvida”, diz a jornalista e doutora em ciência política pela USP Glenda Mezarobba, que trabalhou na Fundação por dez anos e há quatro é editora de Humanidades da revista Pesquisa FAPESP. “Não é assim em todas as agências, nem é assim no mundo inteiro. Recebi delegações que se espantavam ao ver como a gente dedicava o mesmo tratamento e via com os mesmos bons olhos e curiosidade as propostas na área de humanidades”, afirma a pesquisadora, pioneira no Bra­sil dos estudos sobre justiça de transição — como os Estados lidam com o legado de graves violações aos direitos humanos. Em 2011, ela assessorou a elaboração do anteprojeto da lei de criação da Comissão Nacional da Verdade, na qual atuou como consultora após sua instalação.

Batalha da Maria Antônia: confronto entre alunos da USP e membros do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), 3 de outubro 1968
Acervo Iconographia

De 2011 a 2020, por exemplo, a FAPESP desembolsou mais de R$ 11 bilhões no fomento a bolsas e projetos de pesquisa em todas as áreas do conhecimento. Deste total, ciências humanas e sociais recebeu mais de R$ 1,2 bilhão (10,86%). A área interdisciplinar, que também pode englobar cientistas de humanidades, ficou com R$ 910,5 milhões (8,23%). Com a ressalva importante de que as pesquisas nessa área tradicionalmente custam bem menos do que nas outras, por não exigirem o emprego de grandes equipamentos e laboratórios. Menos dinheiro, portanto, neste caso, não significa menos apoio ou menor relevância.

“É um investimento barato”, diz o pesquisador Alcir Pécora, professor de literatura do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A ideia de que só as chamadas ciências duras merecem investimento, porque são elas que trazem algum tipo de desenvolvimento, é um equívoco completo, segundo ele. “Basta ver que nas melhores universidades do mundo — e isso eu ouvi da boca de reitores — o consenso é que nunca chegariam a ocupar o primeiro plano enquanto as humanidades também não chegassem lá, e isso implica investimentos”, conta o autor e organizador de meia centena de livros, entre os quais Teatro do Sacramento: a unidade teológico-retórico-política nos Sermões de Vieira (Edusp/Editora da Unicamp, 1994), Por que ler Hilda Hilst (Globo, 2005) e Plínio Marcos — Obras teatrais (Funarte, 2017).

Na avaliação de Elena Brugioni, colega de Pécora no IEL e professora de literaturas africanas comparadas e estudos pós-coloniais da Unicamp, a ideia de que a retribuição que uma área tem de dar à sociedade precisa ser medida em termos de commodities é um fenômeno internacional. “Lamentavelmente o sistema em que vivemos, um capitalismo neoliberal desenfreado, vai incutindo essa noção de império exclusivo do valor econômico, como se fosse o único que faz as pessoas terem uma vida plena”, diz a pesquisadora. “As humanidades são tão maltratadas assim justamente por serem instrumentos para derrubar esse tipo de lógica. E é seu déficit que está levando a civilização a situações tão constrangedoras e violentas.”

Hilda Hilst (1930-2004), uma das maiores escritoras, dramaturgas e poetas do Brasil no século XX. O crítico literário Alcir Pécora é responsável pela organização e plano de edição das Obras reunidas da escritora
Arquivo Nacional / Wikimedia Commons

“Sendo realista, é compreensível que no tipo de sociedade em que a gente vive as prioridades sejam dirigidas a conhecimentos que orbitam uma razão prática”, pondera o antropólogo Piero de Camargo Leirner, professor do Centro de Educação e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). “Mas o que me chama a atenção, sobretudo, é a dicotomia entre ‘internacionalizado’ e ‘local’, que vale tanto para o pesquisador quanto para seus objetos.” Ele usa um exemplo da física moderna para explicar seu ponto de vista: as partículas de um acelerador são “internacionais” por princípio e, portanto, a pesquisa vai ser um reflexo disso (ainda que não necessariamente a apropriação de seus resultados). “Mas uma pesquisa na nossa área tem problemas nada triviais em relação aos seus dados e resultados. Nem tudo que é próprio da sociedade brasileira é julgado relevante para parcerias internacionais.” Partindo, por exemplo, de algo tão básico (e complexo) quanto a ideia de sociedade, tudo demanda dupla tradução e, portanto, duplicação de esforços. É preciso justificar por que o caso brasileiro é relevante para o mundo e explicar que a ideia de sociedade com que se lida não é a mesma do hemisfério Norte. “Se nada aqui é como lá, então meus pares julgam que perco relevância. Assim, os estudos de humanas já começam com um handicap bem desfavorável, e se constrói então a ideia de que a área é que é falha, e não os interesses”, diz Leirner, autor de O Brasil no espectro de uma guerra híbrida — Militares, operações psicológicas e política em uma perspectiva etnográfica (Alameda, 2020).

“É preciso que a gente deixe muito claro que as ciências humanas são ciências”, destaca Gabriel de Santis Feltran, coordenador da pós-graduação em sociologia da UFSCar e pesquisador do Núcleo de Etnografias Urbanas do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). “A gente não explica nada em ciências humanas por outro paradigma que não seja o da razão. Não é porque Deus quer que as coisas são como são; temos teorias muito sólidas nas ciências sociais e o zelo de produzir muita evidência empírica das afirmações que a gente faz”, diz o pesquisador, autor de The entangled city: crime as urban fabric (Manchester University Press, 2020) e Irmãos: uma história do PCC (Cia. das Letras, 2018).

Dissecando a criminalidade

Uma das feridas que as ciências humanas e sociais têm tocado há anos no Brasil é a da criminalidade e da violência — sejam elas promovidas por gangues, perpetradas por homens fardados, estimuladas por autoridades ou disseminadas por políticas públicas mal concebidas. Com apoio da FAPESP, pesquisadores têm se debruçado sobre a expansão de milícias e facções criminosas pelo país, usando seu bisturi científico para dissecar fantasmas do passado e monstros do presente, que aterrorizam a sociedade.

Um projeto temático da Fundação, coordenado por Feltran e apoiado pela Agence Nationale de la Recherche (agência de fomento à ciência da França), estuda como os mercados ilegais transnacionais de drogas, armas e veí­culos roubados e como a desigualdade que se produz nessas cadeias globais de valor condicionam a violência urbana no país. “Os mercados de veículos roubados movimentam bilhões anualmente apenas no Brasil, e estão por trás da maioria das mortes cometidas por policiais em São Paulo”, pontua Feltran — que entre 2013 e 2019 foi diretor científico do Centro de Estudos da Metrópole, um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) da FAPESP (mais informações sobre os Cepids da FAPESP no Fascículo 4).

Mercados legais e ilegais de veículos estão integrados globalmente. Peças de carros roubados num país podem ser comercializados em outro, espalhando criminalidade e violência
Gabriel Feltran

Feltran também pesquisa as consequências políticas do crescimento de grupos armados nesses três mercados ilegais e nos chamados “mercados de proteção” (facções, milícias e polícias agindo de forma autônoma). Sua conclusão é que o Primeiro Comando da Capital (PCC), diferentemente de outras facções criminosas (como o Comando Vermelho carioca), não funciona como uma empresa nem como um grupo militar, mas se organiza como uma sociedade secreta, aos moldes de uma “maçonaria do crime”. Tal característica pulveriza sua operação econômica, distribuída em milhares de empreendimentos ilegais — e também legais —, cuja compreensão tem implicações diretas para o monitoramento e o combate a essas facções criminosas.

A doutora em antropologia social pela UFSCar Karina Biondi trabalhou na FAPESP durante 12 anos em funções administrativas e conciliou trabalho com a graduação em período noturno na FFLCH-USP, iniciada em 2004. Hoje lecionando na Universidade Estadual do Maranhão, ela escreveu os livros Junto e misturado (2010) e Proibido roubar na quebrada (2018), ambos pela editora Terceiro Nome. Suas investigações detectaram que tanto em prisões quanto em bairros urbanos havia sinais evidentes de controle da facção criminosa, mesmo sem a atuação de nenhum de seus membros. “Para onde você olhava, todas as práticas remetiam à facção. Como tem um cara aqui na responsa da cadeia em nome do PCC que não é da facção? Os presos respondiam: ‘A gente tem de garantir que seja uma cadeia conforme o PCC, porque no passado havia assassinatos, violência sexual, extorsão’. Os presos precisavam parar de brigar entre eles para fazer frente às opressões do Estado, sempre rememorando o massacre do Carandiru, que fica assombrando a vida prisional.”

Automóveis de luxo estão entre os produtos que movimentam economias ilegais ao redor do mundo — tema da pesquisa de Gabriel Feltran, do Núcleo de Etnografias Urbanas do Cebrap
Gabriel Feltran

Explorando essas questões, Biondi observou que não existiam no PCC organogramas ou hierarquias. “É diferente do Rio de Janeiro, em que tem o dono do morro e todo mundo sabe quem é.” Segundo a antropóloga, a falta de compreensão dessa característica gera uma série de mal-entendidos por parte dos organismos de Estado. “A resposta geralmente é ‘vamos isolar os líderes’, como se punindo algumas pessoas você pudesse fragilizar a facção. O Estado dá essa resposta porque não entendeu que tirando uma pessoa vai aparecer outra, e a transferida vai levar essa ideia para outro lugar.” Praticamente todas as pesquisas sobre o tema indicam que uma melhoria na situação da segurança depende de uma guinada de política pública. “Parece que estamos querendo defender bandido, e não é nada disso. Estamos demonstrando que essa política de segurança multiplica o crime. Mas é muito difícil dialogar com essas pessoas que dizem ‘tem que prender, tem que matar’. A teimosia e os dogmas na segurança pública, como a própria tendência de aprisionamento em massa, só fazem as facções crescerem.”

Esse trabalho sólido dos cientistas de humanas apoiados pela FAPESP tem gerado subprodutos valiosos em vários formatos. Irmãos, de Feltran, foi adaptado como série documental sob o título “PCC: força secreta”, com estreia na HBO prevista para abril de 2022. Outro pesquisador que vem rompendo os limites dos círculos acadêmicos é Bruno Paes Manso, do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP, autor dos livros A Guerra (Todavia, 2018, com Camila Nunes Dias) e República das milícias — Dos esquadrões da morte à era Bolsonaro (Todavia, 2020), que ganhou o Prêmio Jabuti 2021 na categoria Biografia, Documentário e Reportagem e baseou a produção de um pod­cast em oito episódios (Globoplay/Rádio Novelo), premiado como melhor do ano no Brasil pelo Deezer, uma das principais plataformas mundiais de streaming de áudio.

Manso foi repórter do jornal O Estado de S. Paulo entre 2004 e 2014. Escreveu sua tese conciliando o trabalho na redação com a pesquisa na USP. “O que a gente como jornalista tem às vezes é a sensação de que está produzindo peças soltas de um quebra-cabeça.” O trabalho no NEV permitiu juntar peças. “Estou falando de coisas que aparecem no jornal, mas pensando um quadro mais amplo, para tentar compreender como é que chegamos até aqui.”

A compreensão do presente pelo passado

Desde o início do mestrado, em 1992, Piero Leirner busca entender o que os militares pensam, como pensam e como transformam o que pensam em determinadas ações e comportamentos. “Procurei equacionar o modo pelo qual se relacionam com o mundo a partir de uma lógica da guerra, modulando suas doutrinas, ideologias e ações em função de desdobramentos daquilo que imaginam como um campo bélico. Nos últimos dez anos procurei ver isso dentro do campo das guerras de última geração, ditas psicológicas, cognitivas, informacionais ou híbridas”, explica o professor da UFSCar. Ele observa que a própria sociedade passou a ser encampada por essas formas de guerra, tanto no exterior quanto no Brasil. Até 2014 todas as pesquisas de Leirner tiveram apoio da FAPESP: mestrado, doutorado, jovem pesquisador. E dois auxílios regulares financiaram os projetos que constituíram a base de suas investigações, imprescindíveis para a compreensão da cultura militar e sua influência no cenário político-social brasileiro.

O mesmo vale para Singer, da USP, que há décadas busca entender como pensa o eleitorado brasileiro. A FAPESP esteve presente desde o começo de sua trajetória profissional, apoiando a publicação do seu primeiro livro, Esquerda e direita no eleitorado brasileiro (Edusp, 2000), derivado de sua tese de doutorado. Na obra ele busca relacionar as vitórias eleitorais de Fernando Collor de Mello, em 1989, e de Fernando Henrique Cardoso, em 1994, a determinadas opções ideológicas, relacionadas a elementos de classe medidos por indicadores como renda e escolaridade. “Esse livro mostrou certos aspectos que vieram depois a reaparecer na atual conjuntura. Procurei mostrar como havia já naquele momento uma percepção daquilo que poderíamos chamar de conservadorismo popular”, afirma Singer. Em artigo recente na revista Opinião pública (“A reativação da direita no Brasil”), ele procura mostrar como o fenômeno Bolsonaro é uma retomada desse processo que já estava em germe na eleição de Collor. “O que estamos vendo hoje não caiu do céu, é algo que está bastante enraizado na história política brasileira.”

O pós-doutorado de Pécora, realizado na Universidade de Roma La Sapienza em meados dos anos 2000 e financiado em grande parte pela FAPESP, resultou no livro Índice das coisas mais notáveis (Hedra, 2010), que ele descreve como “um dicionário de ideias” do Brasil do século XVII. “Escrevi inteirinho lá dentro do Vaticano, onde trabalhei nos arquivos jesuíticos”, conta. “Todos os conflitos mais importantes da história colonial brasileira foram registrados pelos jesuítas, que eram os letrados da época. Quase tudo foi transferido, sobretudo depois da expulsão dos jesuítas do Brasil pelo Marquês de Pombal, para os arquivos romanos. Então, para conhecer a história da Colônia, dificilmente você pode prescindir do acesso a esses arquivos do Vaticano, e eu estive lá graças, ainda que não exclusivamente, a recursos da FAPESP. Sem esse auxílio não haveria como pesquisar questões fundamentais da história do Brasil.”

APOIO DA FAPESP PERMITE PESQUISAR QUESTÕES FUNDAMENTAIS PARA A COMPREENSÃO DA HISTÓRIA DO BRASIL

Brugioni, colega de Pécora no IEL, entrou na Unicamp após uma demanda de estudantes e professores por docentes que se dedicassem à área das literaturas africanas. Ela pesquisa majoritariamente o gênero literário do romance, em articulação com a chamada teoria crítica pós-colonial — estudos que se consolidaram nos anos 1990, nos Estados Unidos. “Cheguei ao Brasil, apresentei um projeto à FAPESP que foi financiado e me permitiu desenvolver pesquisas sobre Abdulrazak Gurnah, que veio a ser ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2021. Por outro auxílio, iniciado em abril deste ano, estou fazendo pesquisa em uma série de países. A Fundação é uma instituição muito valiosa, muito bem organizada, que faz inveja às melhores fundações de fomento à pesquisa dos países chamados desenvolvidos. Um cenário sem a agência seria impossível.”

A necessidade estratégica do apoio da FAPESP ganha importância ainda maior em um contexto de forte refluxo de autoritarismos, em alta não apenas no Brasil. A cruzada tacanha — com agenda política clara que a pesquisa científica séria já demonstrou não ser novidade — elege as humanidades como inimigo público, com uma animosidade que espanta até mesmo veteranos como Pécora: “Nunca houve um ataque tão sistemático aos pesquisadores, sobretudo aos de humanas. Mesmo no governo militar, (…) nunca houve um descaso escancarado assim pelo conhecimento”.

Charge de Leônidas sobre a Revolta da vacina, publicada na revista O malho, 29 de outubro de 1904
Brasiliana Fotográfica

Para Cynthia Andersen Sarti, coordenadora de ciências humanas e sociais da FAPESP, que implantou essa área na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a pandemia de Covid-19 acabou se revelando um exemplo perfeito da importância das humanidades. “Está claro que, muito longe de ser apenas o combate a um vírus, é um combate a tudo que o propaga, que vai muito além do problema estritamente biológico”, comenta Sarti, que é livre docente no Departamento de Medicina Preventiva da Unifesp. “É claro que sem a pesquisa sobre como produzir uma vacina não se pode fazer nada, mas a vacinação adequada envolve sociedade, cultura. Não adianta apenas uma política pública que seja a mais correta do mundo, basta rememorar a Revolta da Vacina no começo do século XX”, quando a população se revoltou contra a obrigatoriedade de vacinação contra a varíola.

Fica claro por que qualquer democracia zelosa de sua saúde e empenhada em sua autodefesa promove as huma­ni­dades, em vez de atacá-las, financiando-as e nutrindo-se de seus frutos — que são, sim, aplicáveis em políticas públicas e podem assumir formas materiais diversas, como livros, documentários, podcasts, cursos. Sempre que as huma­nidades são atacadas, é certo que as exatas e biológicas também sofrerão consequências.

Fiel à sua missão, a FAPESP não só vem mantendo seu apoio histórico às humanidades, como também estimulando a arti­culação dos grupos de pesquisa com colegas de outros países — uma nova tendência da área. “Há todo um processo de internacionalização da nossa equipe, que hoje é muito grande. A gente trabalha com parceiros internacionais o tempo todo, participa de debates internacionais, são muitos ex-alunos que estão no exterior, eu mesmo estive nos últimos cinco anos em três países diferentes”, observa Feltran. Segundo Sarti, da Unifesp, esse esforço de internacionalização torna o apoio da FAPESP ainda mais indispensável. “Isso eleva os custos de deslocamento, mas o ganho é que agora estamos estudando outros contextos, o que tem sido muito rico nas ciências sociais, com um saber muito mais distribuído.”